Lauren Hough

Lauren Hough: Yeah, every day. It is absolutely bizarre. I’m very proud that all we were in was a dumb little cult. And not storming a Capitol. It has been surreal to watch. How reasonably intelligent people buy into whatever the fuck this is. The recipe was there. It always has been in America. The desperation. Our lives revolve around work, and there’s no way to get ahead. And when someone offers you a golden ticket, it’s really easy to buy into that. We don’t have the sense of community we should. People just kind of live in the suburbs on their own. So someone comes and offers them a purpose and unconditional love and someone to blame for all their problems. It’s really easy to buy in. I’m stumped as anyone else.”

in https://electricliterature.com/lauren-hough-book-leaving-isnt-the-hardest-thing-essays/

“Blue-collar customers were always my favorite. They don’t treat you like a servant. They don’t tell you, “We like the help to use the side door.” They don’t assume you’re an idiot just because you wear a name tag to work and your hands are calloused. The books on their shelves aren’t bound in leather. But the spines are cracked. Most of them, when you turn on the TV, it’s not set to Fox. They’re the only customers who tip.”

https://www.huffpost.com/entry/cable-tech-dick-cheney-sex-dungeon_n_5c0ea571e4b06484c9fd4c21

diário #20210412

Todos os dias, à meia noite e cinco, passa um avião sobre o prédio onde moro. Ainda há aviões com pessoas lá dentro. As aulas de escrita são uma espécie de sessões de psicanálise de grupo. Não quero escrever sobre a morte, não sei sobre o que quero escrever. Preciso de escolher um tema para um texto, mas detesto decidir sobre o que escrever, um defeito profissional, prefiro que me mandem do que ir sozinha. O tempo está húmido e doem-me mais as articulações. Quando o médico me pergunta numa escala de 0 a 10 quanto me dói, nunca sabia o que responder. Entretanto adaptei a escala de Richter à dor, até 3 existe mas passa despercebida, 4 e 5 sinto-a mas consigo continuar na minha vida, 6 e 7 tarefas básicas ficam bastante dificultadas, 8 e 9 não sei o que são nem quero saber. A minha vida vai encolhendo, as pessoas com quem falo são cada vez menos, os sítios onde vou, como se estivesse a implodir em câmara lenta, absorvida em mim, por mim, para dentro de mim. Não vou à rua, deixei de falar ao telefone, quero estar na cama a ler. Será isto preguiça, doença mental, ou apenas o princípio de Darwin, a minha adaptação progressiva ao mundo que me rodeia, ou uma forma de não comprometer o equilíbrio homeoestático. A sobrevivência do mais quê? O meu dia são tarefas e obrigações, eu a tentar despachar o sofrimento todo para adiantar serviço, para eventualmente quando terminar, limpar as mãos às calças e ir viver de uma vez, no dia de são nunca, sete palmos abaixo. Vou remoendo ideias para escrever mas nada me agrada, gosto de escrever sem fim à vista, para me ajudar a pensar. Escrevo subcontratando as mãos para que pensem por mim, porque o cérebro já não funciona bem, numa espécie de outsourcing do pensamento. As mãos são poderosas como o cérebro, as mãos têm uma sensibilidade incrível, prefiro artesãos a artistas, o domínio do corpo, a disciplina dos métodos, o respeito pelo material, o concreto. Afasto-me cada vez mais da abstração e da criatividade pura. Procuro o tema para escrever, palavras ao serviço de uma causa, joeiro a espuma dos dias, a pobreza de quem trabalha, A Pandemia, coragem e cobardia, tento desemaranhar as memórias, mas algumas já não as sei distinguir de histórias inventadas, de sonhos que remoí durante dias até se transformarem em falsas recordações. Odeio pessoas que fazem contabilidade dos livros que lêem. Este ano já li vinte e um.

diário #20210402

Estou a arrotar a alface desde a hora do almoço. Não sei mais o que comer, tudo me aborrece, me enjoa, me indigesta. Arrotar dentro das máscaras é mais uma das maravilhosa dádivas do covid. As formigas continuam na vida delas e eu na minha, de manhã saíam pela ranhura que as tomadas de electricidade têm para serem desencaixadas, uma coisa com dois ou 3 milímetros no máximo. Fui buscar a fita cola e dediquei-me a contorná-las impedindo a circulação. Amanhã terão descoberto outro caminho e Sísifo cá estará para elas. Continuo a adicionar coisas aos favoritos, coleccionadora compulsiva de corações em bens de consumo digital. Não tenho dinheiro, tempo, espaço ou inconsciência ecológica que me permitam comprar tudo mas ainda assim não quero que as coisas me faltem. Não quero que nada me falhe, espalho amor por todo o lado, gosto disto, e disto e disto. Listas e listas e mais listas. Quero muito escrever mas não tenho assunto, por isso ponho-me a esmiuçar o quotidiano em mícrons de realidade, à espera que a musa venha, mas ela está ocupada a ser ghost writer de outro alguém.

Primavera, Ali Smith

Nunca tinha lido nada da Ali Smith, mas tinha muita vontade desde que li um texto na revista Ler sobre ela (deixei de comprar a Ler por essa altura, quando começou a falar das Kardashians, de “mamas na literatura” e do bigode das escritoras). Ali Smith tem uma escrita muito abrangente, é espiritual, física, cómica, trágica, quotidiana, erudita. É uma mistura de coisas muito bem encadeadas. Gostei muito e agora vou ter de ler todas as outras estações do ano.

O pedido de desculpas

Eu podia pedir-te já desculpa
mas não seria sincera.
Seria apenas uma reacção
ao teu ofendimento
que por enquanto não consigo entender.
Por isso vou informar-me
e aprender
e perceber completamente
todas as formas em que errei.
Então aí sim,
profundamente arrependida,
porque um erro perdoa-se,
mas a hipocrisia não,
pedirei-te desculpa.
Agora ainda não.

diário #20210329

Entretive-me no fim de semana a plantar flores e a tratar dos vasos, por isso hoje estou cheia de dores no corpo. A inactividade física cansa-me, a actividade também, por isso mais vale aguentar as dores e fazer umas coisas de vez em quando. Selecciono listas de filmes, séries e livros que nunca terei tempo para ver e ler. Confundo uma foto da Ana Luisa Amaral com a Paula Bobone e rio-me muito quando me apercebo do erro. A minha cabeça já foi um computador, agora já não é. Penso muitas vezes em quem morreu antes de 2020, que nunca chegou a aturar este caos do covid. O que pensariam essas pessoas disto? Morreram cedo para não terem de suportar esta merda? Não percebo nada de filmes de super-heróis mas parece-me que todos os vilões estagiaram pelo menos 100 horas por semana numa consultora ou banco de investimento. É o preço a pagar para garantir para cima de mil euros na conta todos os meses e para o resto da vida, isso de aceder ao lado negro da força. Estou a brincar.

Little Tales of Misogyny, Patricia Highsmith

Não consegui entender este livro. Histórias gratuitas de misoginia, estereótipos sem crítica, profundidade ou redenção. Um livrinho talvez irónico talvez não, para agradar a misóginos ou talvez não, o leitor que decida, eu já dei para esse peditório, mas agora já não.

diário #20210319

Oiço podcasts de escritores, sobre escritores, para escritores. É engraçado como a meritocracia é sempre o argumento de quem desconhece a sorte que teve. Surpreendo-me sempre, a burra, com os graus de parentesco dos meritocráticos. Eu que sou uma marrona e por isso me sobrepreparo para fazer tudo, lembro-me amiúde do que a professora de ballet dizia: para fazer uma tripla pirueta em palco é preciso fazer uma quádrupla no estúdio. Ai que esta juventude já não lê, dizem todos, já não escreve e já não lê. Não sei o que diga. Nem sequer sei o que quero dizer com a maior parte das coisas que escrevo, como boa cobarde que sou, deixo isso à responsabilidade de quem lê. Hoje é sexta-feira e sobrou imensa fruta pela primeira vez em 2 meses. Viva a escola.

Pequenas alegrias

Estou quase a habituar-me a ouvir podcasts enquanto trabalho, desde que o trabalho seja dos mais leves e não implique escrever palavras. Alberto Pimenta n’A Beleza das Pequenas Coisas foi das melhores coisas que ouvi ultimamente.

Vou só deixar isto aqui

“O exemplo mais flagrante do provincianismo português é Eça de Queirós. É o exemplo mais flagrante porque foi o escritor português que mais se preocupou (como todos os provincianos) em ser civilizado. As suas tentativas de ironia aterram não só pelo grau de falência, senão também pela inconsciência dela.
(…)
Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades porque o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos.”

Fernando Pessoa, 1928
Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980: 159.
1ª publ. in “Notícias Ilustrado”, série II, nº 9. Lisboa: Agosto. 1928.

diário #20210317

Confesso que tenho dificuldade em perceber o que sofrem os “burgueses do teletrabalho” como eu por não sairem de casa. Não sinto dificuldade nenhuma em estar em casa a trabalhar meses a fio, especialmente agora que a escola voltou a abrir. Em casa nunca me aborreço. Lembrei-me do espanto que senti quando percebi pela primeira vez que Sísifo era um homem. Sempre o tinha imaginado mulher e senti-me chocada e até um pouco ofendida quando percebi que não era. Depois percebi que a versão feminina de Sísifo não chega sequer a mover a pedra, não chega a sair do mesmo sítio porque está sempre a parar para resolver os problemas de todas as outras pessoas à sua volta. Segura a pedra com um pé enquanto dá colo a uma criança, fala com a mãe ao telefone com ele entalado entre a cabeça e o ombro, e mexendo, com a mão que lhe resta, a panela do jantar. Comecei a ler o Bird by Bird da Anne Lamott e estou a dobrar os cantos a todas as páginas, de bom que é. Para além disso também é muito divertido. Terminei A Floresta de Bremerhaven de Olga Gonçalves, uma jóia do PREC, com um dispositivo narrativo invulgar, composto quase exclusivamente por diálogos em que ouvimos apenas os interlocutores do narrador e nunca o que o narrador lhes diz. Passa-se em Porto Covo, mas na minha cabeça vejo Milfontes, onde passei algumas férias de infância nos anos 80. Lembro-me das noites de calor e de o meu pai me bater por eu não conseguir dormir e estar sempre a chorar, cheia de babas das melgas que me atacavam impiedosamente. Esta noite acordei de um sonho em que subitamente tudo começou a tremer e a vibrar sem explicação, percebendo depois ao acordar que essa vibração do sonho tinha sido provocada por um dos habituais picos de batimentos cardíacos que costumo ter depois de me deitar. A minha cabeça criou uma história para justificar o que estava a acontecer ao meu corpo, que bonito, efabulo até a dormir.

Porque não uso saias

Geralmente não uso saias. Tenho algumas mas não me sinto confortável a usá-las. Chego a vesti-las e dispo-as logo em seguida, trocando-as por calças. Costumo usar vestidos quase exclusivamente quando vou para a praia. O meu desconforto com saias começou na escola, os rapazes a levantavam-me as saias o tempo todo. Quando fui para a preparatória, comecei a recusar-me a usar saias o que irritava bastante a minha mãe. Preferia roupas mais desportivas e largas, semelhantes às roupas que os rapazes usavam. Esse tipo de roupa protegia-me de uma série de coisas que eu procurava evitar. Estar bonita não era uma prioridade, sentir-me segura sim. A minha mãe e outros familiares não me davam descanso, sempre a pressionarem-me para usar saias e roupas mais femininas. Penso que a minha escolha era inconsciente e automática, pavloviana, não sabia ainda como justificar-me e explicar à minha mãe porque assim era. Acho estranho que nenhum adulto na altura tivesse discernimento para compreender porque é que eu fazia essa escolha; não compreendo também porque continuavam a tentar forçar as minhas escolhas que poderiam ter sido motivadas por uma série de outras coisas relativas a identidade de género ou preferências sexuais. Hoje em dia continuo a vestir-me sobretudo com peças de roupa que tanto poderiam ser de homem como de mulher. Não sei se é força do hábito, se é força de um trauma, se no fundo tenho em mim alguma não binariedade. Não sei, apenas lamento o tempo e energia dispendidos com este assunto ao longo da minha infância e juventude.

diário #20210310

Dói me muito a cabeça. Respiro devagar para a cabeça latejar menos e tomo um paracetamol. Vem me à boca uma daquelas frases nojentas começada por “as pessoas”: as pessoas gostam de achar que a sua maneira de fazer as coisas é a única, a absoluta e verdadeira. As pessoas e as coisas variam muito mas as pessoas gostam de achar que não, e estão muito seguras das suas convicções. Acordei cedo para levar a minha avó para fazer análises de rotina no hospital e não bebi café. Percebo agora porque me dói tanto a cabeça. Não consigo concentrar-me nos episódios novos de American Gods por causa dos dentes do Ian McShane, não consigo parar de olhar para as capas de porcelana estilo Barbie que vão tão mal com tudo o resto. Tenho formigas na cozinha há mais de um ano, já gastei demasiado dinheiro em armadilhas e venenos e não consigo exterminá-las. São minúsculas e passam por todos os buraquinhos, até entram em frascos fechados se não forem daqueles com borracha para vedar. Estou cansada de ter de tirar tudo da despensa, dos armários, da bancada. O livro da Carmen Maria Machado é muito bom, tirando aquela parte do Law and Order, francamente dispensável. Comecei a ler A Floresta de Bremerhaven, de Olga Gonçalves, por sugestão de Susana Moreira Marques num programa de tv de cujo nome não me lembro, em que se fala de escritoras portuguesas esquecidas. Forço-me a ouvir podcasts enquanto trabalho porque a música cansa-me e o silêncio apita-me nos ouvidos. Ouvir quem acha a vida fácil faz-me sentir a vida mais fácil. O paraíso é não saber que vamos morrer, adão e eva de lá e arrependeram-se. Preciso de matar as formigas, o medo de falhar e a fada do lar.