Trabalho nocturno

Sonhei com um mar negro de barcos a virar e tubarões a saltar e mergulhadores em perigo. Não tive medo de nada. Caí de um muro alto e nem me assustei, deixei me cair mole para não partir muitos ossos. Ah, os antidepressivos…

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Ainda me resta alguma ingenuidade

Todos os dias, às nove da manhã, nas traseiras do meu local de trabalho, o funcionário de um talho fuma a sua ganza. No café, há quem beba favaios. Exprimo a minha surpresa por alguém conseguir trabalhar ganzado ou bêbado àquela hora da manhã. A minha colega corrige-me: é precisamente o contrário. Sem a ganza ou o álcool é que eles não têm ânimo para ir trabalhar.

Desculpas e consequências

Acho que finalmente encontrei o dispositivo narrativo para contar a história que quero contar. Estou muito contente comigo própria, mas não há ninguém a quem eu consiga explicar porquê. É muito raro eu ficar contente comigo mesma. Não tenho tempo para escrever, tenho dois empregos, tenho aulas, um filho, demasiado sono, cansaço e preguiça, mas sobretudo uma excelente capacidade para inventar desculpas para não fazer o que realmente gosto. Para os deveres não arranjo desculpas, faço-os e pronto. Quando tinha 17 anos concorri a um prémio literário e prometi-me que se ganhasse ia começar a escrever a sério e tentar ser escritora. Ganhei e nunca mais escrevi. Espero ter ainda 10 anos de vida para conseguir escrever o livro que já tenho na cabeça. 10 anos, é essa a minha meta. Espero até lá deixar de ter medo das consequências.

Estudo de mercado

No autocarro, sentados no banco atrás de mim, dois estudantes universitários conversam. Enquanto um utiliza várias vezes a palavra “cidadões” no contexto errado, o outro lê em voz alta um texto de um site no telemóvel, parando a meio das palavras como uma criança da primária. Discutem se o público alvo de uma empresa de car sharing é dos 20 aos 40 ou dos 20 aos 30. “Os “cidadões” de 40 anos, tipo os meus pais, tás a ver, não percebem de tecnologia, não tão à vontade para usar este tipo de coisas”. A cidadona do banco da frente, que se sente bastante à vontade a ler textos sem gaguejar desde a 3a classe riu-se sozinha e saiu do autocarro, a lamentar não ter dinheiro para poder de vez em quando utilizar a tal empresa de car sharing.