diário #20201015

Gostava de ser uma pessoa límpida, transparente e pura. Tenho vergonha dos meus pensamentos, de adivinhar ruindade e horror em todo o lado. Sou monótona, reajo sempre da mesma maneira, quando estou zangada choro, quando estou triste choro, quando estou frustrada, cansada, impotente choro. Quando estou contente também. Sou um bom soldado, já vários me disseram, a obedecer e a antecipar, a proteger e a cuidar das guerras dos outros. Tenho poucas certezas e sou boa a improvisar. Sou uma excepcionista, para cada pergunta ou exemplo procuro a resposta que escapa à regra, que é mais inteligente que a pergunta, encontro as falhas, passo entre os pingos da chuva, encontro um caminho que não é proibido, mas que está mesmo em cima da linha, furo como a minhoca até prova em contrário. O metal nem sempre é mais forte que a madeira, depende do metal e da madeira, depende da função e do uso. O meu crime é não repetir o que me foi regurgitado, é dar-me ao luxo de pensar antes de responder, ser pessoa de raiz e não por enxertia.

Melhor rácio coiso

Susana Moreira Marques é, provavelmente, o escritor português (viram o que eu fiz aqui? eheheh) com o melhor rácio quantidade/qualidade (ou será qualidade/quantidade? É o que dá tentar falar em jornalês…). Se eu ganhasse o euromilhões pagava-lhe um ordenado para que ela pudesse escrever sobre o que lhe apetecesse. Foram os 3,15€ mais bem gastos deste mês. (E se ainda não leram o “Agora e na hora da nossa morte”, façam-me o favor de se auto-flagelarem, sim?) Quando forem ao pingo-doce metam este livro lá pelo meio das chouriças, ok?

diário #20201006

Há dias em que a língua não me cabe na boca, fico com ela meio aberta, apesar da língua não sair cá para fora porque tenho o freio preso e não mo cortaram quando nasci. Fica assim nem dentro nem fora, esbranquiçada e seca porque tenho o nariz entupido e respiro pela boca. Com a cabeça pendente de cansaço pareço um bezerro morto. Vou fazendo pausas de ser eu e vou fazendo de conta que sou uma pessoa séria, uma Mãe®, uma Designer©, faço conversa de chacha, digo banalidades sobre o tempo e as notícias. Depois quando chego a casa preciso de dois dias para descansar. Muitas vezes penso se as dores que tenho não serão psicológicas, mas depois o corpo lembra-me e o médico lembra-me e há exames e relatórios e papéis e medicamentos com nomes que parecem saídos de um sketch do Herman enciclopédia. Escolho uma série qualquer que tenha pessoas feias com dentes tortos e amarelos, como já não existem na América. Vou à varanda e digo adeus aos astronautas da estação espacial internacional enquanto penso em pão frito em azeite numa sertã de ferro em cima do forno a lenha. Toda a gente que gosta de ler sabe que o melhor local é de costas para uma janela.

diário #20200925

Apetece-me um cigarro depois de cada episódio de Normal People. Até os pandas precisam de pornografia para procriarem em cativeiro. Apareceu-me um anúncio no instagram: become mentally bulletproof, deu-me vontade de rir, que tipo de kevlar terão inventado agora contra o sofrimento? Não leio nada fresco e estimulante na internet há muito tempo, só os mesmos resmungos e clichés batidos como os meus. Preciso de palavras novas, erva tenra, como os burros. Preciso de conversar. Apetece-me fazer loucuras por isso lavo os dentes, calço umas meias fofinhas e vou mas é dormir.

E por mim falo

Também vi o “The Social Dilemma”, mas lá está, é como os meus pesadelos que não são bem pesadelos: o horror acontece mas está tudo normal. É pertinente, adorei o conceito de “extreme center”, gosto muito do Kartheiser, mas o tom pareceu-me condescendente, o que se calhar até nem é mau dado o grau de infantilidade da maioria das pessoas.

Rocket Man

Mandei o miúdo para a escola com um saco cheio de atavios para ficarem na sala: chapéu, garrafa, ténis, declaração assinada a permitir que lhe meçam a febre, um muda de roupa dentro de um saco de plástico fechado, mais sacos de plástico com fecho, uma lancheira com um iogurte e um pacotinho de bolacha maria, uma caixa para colocar os pertences e um envelope com vinte e cinco euros para material. Não coçes os olhos, não ponhas as mãos na boca, faz xixi em pé, brinca muito, sê gentil, porta-te bem.

Lá foi ele sozinho para dentro da escola como se entrasse para um nave espacial. Ao fim do dia a expectativa de o ver sair pela mesma porta, não sei bem vindo de onde. Se as coisas que levou encontraram o caminho que deviam, não sei. Mars ain’t the kind of place to raise your kids, in fact it’s cold as hell.

Hipocrisia

Agora que penso bem, apesar de nunca copiar, deixei sempre que copiassem por mim. Isso não faz de mim nada. Não deixa de ser hipocrisia, acho eu. Não deixes que te façam a ti o que não gostas de fazer aos outros. Agora ri-me.

Primeiro dia

— Um menino escondeu a folha e ralhou comigo que eu não podia estar a copiar, mas eu só queria saber se era para escrever o primeiro nome ou o nome completo.

Que nome dou a isto?

Tenho tido sonhos horríveis mas não pesadelos. Não lhes chamo pesadelos porque enquanto duram não sinto angústia, ansiedade, medo ou terror. Esta noite sonhei que estava num restaurante de fast-food e entrava um maluco que começava a agredir as pessoas. Uma funcionária ficou com os ferros das costas de uma cadeira enterrados num braço e eu ajudei-a a arrancá-los. Outro tinha um ferro espetado na barriga. Por fim, alguém levou com o óleo a ferver e tinha a pele a derreter. Eu, que desmaio ao ver uma pinga de sangue, calmamente deambulava pelo meio da confusão, tentando ajudar este e aquele enquanto me esquivava de sofrer também um ataque. Perante este cenário aterrador nunca me senti assustada ou vulnerável. Só quando acordo e penso no que estava a sonhar fico com medo de estar a perder o discernimento, a empatia ou a capacidade de sentir. Por isso culpo os remédios, são eles que me permitem atravessar os pesadelos sem nada sentir.

diário #20200923

Gosto quando pessoas que mal me conhecem confiam em mim os seus segredos. É bom sentir que confiam em mim. Continuo a sentar-me mal, à excepção dos primeiros 10 minutos do dia em que ainda estou consciente da minha postura. Ontem foi o joelho que me começou a doer. Estou quase a acabar a Ferrante, mas que bela telenovela que ali está, e não, não é um comentário depreciativo, há belas telenovelas como há belos jogos de futebol, apesar de todas e todos terem má fama por a média ser tão medíocre. Estou a ver o Normal People às pinguinhas, não tolero mais do que um episódio por dia, às vezes viro os olhos do ecrã porque não consigo tolerar toda aquela intimidade. Vi uma série documental muito boa, I’ll be gone in the dark, muito forte e muito redentora sobre uma jornalista que procura um serial killer que nunca foi apanhado, — spoilers que não são spoilers porque a história é pública e aconteceu há vários anos — só o conseguindo depois de morrer. Cortei o cabelo na casa de banho, mais um pouco de volume e estaria uma Adília Lopes. Fosse tudo fácil assim de replicar.

diário #20200917

Hoje à hora do almoço foi a primeira sessão com a fisioterapeuta nova, explicar de novo todas as merdinhas que doem e moem mas não matam. Analisou-me o corpo, fez perguntas e por fim concluiu que faço tudo mal. Não sei dormir, sentar, levantar, andar. Devia fazer exercício, mas não muito, estar menos tempo sentada, dormir de barriga para cima, elevar o computador à altura dos olhos. Sei muito bem tudo o que devia fazer mas para isso o meu dia teria de ter pelo menos 30 horas. Saí de casa às 8:40 sob chuva torrencial e só voltei a entrar às três da tarde, sem ter bebido água, comido, ou ido à casa de banho, com a fisioterapia e as compras da semana despachadas. Ninguém quer saber disso para nada, comi uma empada e um pêssego a correr e voltei para me sentar toda torta e numa cadeira inadequada em frente ao computador que está mal posicionado. Há quem pratique desportos de combate ou corra à chuva e ao frio, eu inflinjo-me estes pequenos castigos, por alma de quem, não sei. Não vi que na panela do jantar de ontem já não havia carne por isso o jantar foi quase vegetariano: restos de massa, couve e feijão guisados, umas rodelitas de chouriço que afinal ainda estavam por lá escondidas. A fisioterapeuta pergunta-me de 0 a 10 qual o meu nível de dor e apetece-me mostrar-lhe o meme.

Para me compensar, depois de deitar o miúdo, sento-me obviamente de forma errada, e como gelado de nozes enquanto sofro a ver o primeiro episódio de “Normal People”. No fim do episódio a sensação é a de um viciado que reincidiu após um longo jejum. Como é possível ser tão bom e ao mesmo tempo fazer me sofrer? Deve ser porque tenho a tensão baixa e na série ela é de cortar à faca. O fundo branco do ecrã começa a amarelar, são 10 horas, diz o computador, horas de erradamente te ires deitar.

Melhor título para a praia

Entretanto comecei a ler isto na praia mas ainda vou a meio. Nunca li ficção dela, apesar de ter um cá em casa. Estes ensaios são muito bons, o título é referente apenas ao primeiro ensaio (até fala de musas, eu adoro musas), mas de certa forma aplica-se quase a tudo. Até a quem está na praia.