The joke was on me

No fim da entrevista, depois de me dizer que o valor que estou a pedir é demasiado alto, pergunta-me se estou disponível para fazer um teste. Devo telefonar-lhe às 10:30 (“A esse hora o seu marido não está em casa não? É para ele não ajudar”). Vai-me passar um briefing a que devo responder dentro do tempo por ele estipulado. Aceito, e digo que o meu marido até está no estrangeiro, que não me pode ajudar. 

Telefono-lhe no dia seguinte, apesar de a entrevista me ter deixado com urticária e uma tremenda necessidade de tomar banho. O briefing consiste em criar um logotipo, cartão de visita, flyer e outdoor para uma das marcas da empresa. O entrevistador garante que “não vou usar isso não”, como se eu ainda perdesse tempo a chatear-me com essas coisas. Tenho 4 horas para lhe enviar por mail o material pedido. Respondo que sim no tom mais neutro e incaracterístico possível. Desligo o telefone e começo a rir sozinha em frente ao computador. 4 horas. É na boa. 4 horas é em média o tempo que eu gosto de gastar só em pesquisa, antes sequer de começar a desenhar um logotipo. Não tenho mesmo mais nada para fazer até à hora do almoço por isso avanço. Sei que consigo fazer aquilo na boa em 4 horas ou menos. 

Demoro 3 horas e meia a montar uma solução digna e que não me envergonha. Faço 2 ou 3 slides com umas tretas, uns mockups como agora se usam e mando o pdf 3h45 minutos depois de me passarem o briefing.

Sento-me à mesa da cozinha a comer sopa de feijão e o resto da carne assada de ontem. A carne assada demorou mais tempo a preparar que o logotipo, cartão, flyer e outdoor. Não quero trabalhar ali nem quero trabalhar assim. Raspo o prato para o  lixo, para onde irão brevemente os 8 logotipos, cartões, flyers e outdoors que eu e mais sete macacos como eu passaram a manhã a fazer. Em pensamento trauteio em loop “talvez devagarinho, possas voltar a aprender.”

Pagar para passar à frente

Os pobres esperam muito. Pela consulta, pelos transportes, pelo papel, por uma vaga, por uma chance, por justiça. Sabemos que o tempo se tornou um valor maior que o dinheiro quando o podemos comprar, tornando os pobres ainda mais pobres fazendo-os esperar.

Adolescência

Tudo é uma questão de vida ou morte, de preto e branco. Tudo é absoluto, grave, intenso, irremediável, imperdoável. Que canseira para quem vive toda a vida assim.