Diário #20200328

Andar sempre de chinelos está a fazer-me mal à anca. Elegi um par de ténis confortáveis com um bom arco e passei a andar sempre com eles calçados em casa. Hoje foi a primeira vez que consegui ir para a varanda ler e apanhar um pouco de sol. A maior diferença que sinto entre este “isolamento social” e o tempo em que trabalhava como freelancer é precisamente a falta de isolamento. Preciso de estar sozinha um bocado todos os dias, e agora não consigo.

diário #20200327

Há dois dias pedi à minha mãe para fazer a lista das compras, dela e da minha avó, para quando for ao supermercado trazer o precisam, tentando evitar que saiam à rua. Uma vai fazer 69 anos a outra 87. Digo ao meu marido que a lista vai ser qualquer coisa como “2 embalagens de presunto, 1 pão e 1 frasco de acetona para as unhas”. Antes de sair para a visita ao supermercado peço à minha mãe a lista de compras que mandei fazer há 2 dias. A lista é a seguinte:
3 litros de azeite
1 lata azul de creme nívea
2 kg de batatas
1 kg de cebolas
2 pães
bolachas de baunilha das antigas ou de canela
colorau em pó
2 embalagens de presunto
Pergunto-lhe se o creme nívea é para barrar no pão e comer com presunto. É esta a lista semanal de compras para as duas. Ou melhor, é esta a lista com que elas me pretendem endrominar para depois terem desculpa para irem ao supermercado dia sim, dia não.  Não sei mais como lidar com isto, esgotei todo o meu reportório de argumentos. Também me choca que achem que me estão a enganar prometendo que não irão à rua durante a próxima semana. No supermercado há de tudo, menos o creme nívea. No meio dos corredores vejo alguém conhecido. Ao fim de uns segundos finalmente reconheço-o: é o Sousa Cintra. Está a escolher plantas e árvores de fruto na maior das calmas. Estimo que esteja ali a meio entre a idade da minha mãe e da minha avó. Apetece-me dizer-lhe “Vá para casa senhor presidente!” mas consigo-me controlar. Pisco muitos os olhos e com muita força a tentar perceber se não estou a sonhar. Sinto-me no meio de um daqueles sonhos marados quando troco a medicação. Arrasto as compras para o carro, páro à porta do prédio para entregar as compras à minha mãe, arrasto as compras para casa, recebo uma mensagem no telemóvel, nem preciso de abrir para saber o que é, as velhas a cobrarem a falta do creme nívea, arrumo tudo e apetece-me vomitar de cansaço. Dói-me o corpo todo. Empurro um comprimido para as dores e um antidepressivo com cerveja. Como uma sopa, uma laranja. Vou para a cama às 9 da noite. Acordo cheia de dores nos pés, já vejo luz pelos estores. Desde que estamos em casa é o meu filho que me chama para sair da cama todos os dias com um beijo, depois de acordar com o seu próprio despertador. Pequeno-almoço, banho, teletrabalho. Demasiado tarde reparo que já passa da hora de fazer o almoço. Vou para a cozinha inventar qualquer coisa rápida. Digo ao meu filho que o almoço vai ser espetadas e batatas fritas aos quadradinhos. Ele olha para mim e emenda-me: vão ser batatas aos quadradinhos fritas, não é mãe? Sim, é isso mesmo.

diário #20200324

Passei a tarde de ontem a escolher fotos de mulheres no banco de imagem. A quantidade de fotos de mulheres amarradas, semi-nuas, com ar inanimado, deitadas no meio do mato nunca deixa de me impressionar. Tenho de escolher uma mulher magra, jovem, bonita, de olhos claros, com ar inocente. É como se estivesse no tinder, vou arrastando imagens para a pasta das favoritas, tentando interpretar o desejo de terceiros. Doem-me as costas, não tenho fisioterapia há 4 semanas. Não sinto qualquer necessidade de sair à rua, de ir ao shopping, ao parque, à praia. Só lamento não ter comprado ainda as estantes de que preciso para acabar de arrumar o escritório. Talvez seja melhor esperar pelo reembolso do IRS, ou que me paguem trabalhos de freelancer que fiz há mais de dois meses. Por enquanto tenho trabalho que me ocupa a tempo inteiro, mas não sei por mais quanto tempo terei.