diário #20200730

Os meus últimos dias parecem escritos por Kafka, uma enxurrada de papéis, telefonemas, emails, silêncio, esperas de horas, má-fé, burocracia infinita. Nada que mate, mas mói muito. Nenhum processo é linear, objectivo e consequente. Como já disse várias vezes não é a calamidade irresolúvel que mais me perturba, mas sim as pequenas maldades e injustiças do quotidiano que se acumulam até sentir o mundo às minhas costas, sentada no sofá, no conforto do lar a ver documentários na Netflix. A América está em guerra civil. Os portugueses começam a descobrir, infelizmente como de costume, tarde e a más horas, que Portugal é afinal um país racista. Passo o dia sozinha, tenho pouco trabalho, não falo com ninguém, passo os olhos por fotos de gatinhos e aviões a aterrar em dias de ventania para me acalmar. Não consigo ler, estou demasiado revoltada, alvoroçada, desconcentrada. O mundo é uma puta de uma injustiça gigante e eu sou fraca e cobarde. Daqui do conforto da minha vida privilegiadamente mediana, podia não me preocupar com nada, podia passar por cima de tudo isto, dessa forma não me sentiria tão fraca e tão cobarde. Podia planear férias, ler revistas de lifestyle, ir aos restaurantes da moda, mas a pior dádiva dos meus pais foi a crença na justiça e na verdade. Já não me sei divertir, não encontro conforto em nada, jogo Candy Crush para me impedir de pensar.  O que faço com o complexo de Cassandra, adivinhando dia a dia o que se vai desmoronar a seguir, ninguém acreditando em mim, a não ser quando as previsões se concretizam? Tenho medo de ceder à loucura, já estive a centímetros dela, descontrolada de fúria por nunca ver reconhecidos os meus esforços, que ultrapassam em muito o que seria normalmente louvável. Gostava de ser um cão de cabeça baixa e rabo entre as pernas. Por outro lado gabam-me a perda de peso, perguntam-me se fui ao nutricionista, e não sou desagradável e não respondo “porquê? achas que estava gorda?”, respondo que é uma perda de peso involuntária, o meu estômago deixou de tolerar certos alimentos. Antes magra e doente que gorda, é um bom resumo das aspirações da sociedade. Antes corrupta e bem-parecida do que feia e justa.

O próximo

IMG_1185.JPG

Durante décadas a CIA promoveu a “guerra fria cultural” patrocinando certo tipo de literatura que glorificava o individualismo e o liberalismo como forma de doutrinação cultural contra a ameaça do comunismo. O curso de Creative Writing da Universidade de Iowa, frequentado por alguns dos mais famosos escritores americanos foi um dos meios de disseminação desse estilo de literatura, contaminando aquilo que o ocidente considera “boa literatura” até aos dias de hoje.

diário #20200820

I kind of like it when I know people will cheat on me right before they do. I’ve had my share of friendly betrayals and abandonment. No outro dia vi uns bons 10 minutos de uma série até me aperceber que as legendas estavam em inglês. Terminei o Kitchen Confidential no fim de semana. Há uma verdade, uma honestidade e uma lucidez latentes nos livros escritos por pessoas que mais tarde se suicidaram. Ainda sobre o Invisible Women, espanta-me como a sociedade nem sequer se move para a igualdade por uma questão económica, o principal motor do capitalismo. Damo-nos ao luxo de excluir metade do mundo de participar, de contribuir com uma visão diferente, deixamos que morra, que sofra em vão. Recomendo-o sobretudo aos homens que de boa fé não fazem a mínima ideia que tudo isto acontece à sua frente sem que o consigam ver. Porque também há os que o fazem de má fé. E por falar em má fé, há uns tempo vi o documentário a 13ª emenda e fiquei com vontade de ir para a rua partir tudo. Acho que estamos a viver o apocalipse e ainda não nos demos conta. Merecemos a extinção. Agora vou trabalhar um bocadinho.