diário #20170216

Hoje nadei 1250m e apetece-me encher a boca com chantilly directamente da pistola. Na quarta-feira fui a mais uma entrevista de emprego. Penso qual será a taxa de conversão. Estive em muito mais entrevistas como entrevistador do que como entrevistada e não sei se isso se nota. Ultimamente dá-se o fenómeno, geralmente a meio da entrevista:  entrevistador começar a falar mais do que eu e terminamos comigo com sorriso compreensivo, anuindo com a cabeça enquanto o recrutador discorre sobre a sua vida, numa sessão de quase psicanálise invertida. Saio de lá com a ilusão, já que não fico com o emprego, de pelo menos ter ajudado aquelas pessoas a desabafar. Gosto do meu corpo como nunca gostei antes, o cabelo comprido e espigado, as mamas pequenas, as peles dos braços, as olheiras fundas, a textura mole da barriga, como um balão cheio há 15 dias e que começou lentamente a mirrar. Só gosto de penteados de homens. Não é penteados à homem, é penteados de homens específicos, as crinas do Kiedis, a coloração do Iggy Pop, o puxinho do Zlatan, as tranças do Willie Nelson, o shag do Pirlo, o bob do Kurt Cobain. Nada que a cabeleireira consiga entender. As pessoas de bem continuam a ir de férias para a Europa fotografar monumentos e pratos de comida, ou então para o terceiro mundo, fotografar crianças pobres, filhos dos outros, lá pode-se porque não sei. Estou cada vez mais perto do meu momento Frida Kahlo, em que deixo de arrancar os pelos do queixo. Sonhei com um anagrama. Ou melhor, inventei um anagrama num sonho. O cérebro trabalha muito quando estamos a dormir.