É assim que se faz um livro infantil ou poesia pós-moderna*

Título: Os meus pés

Os meus pés servem para andar.
E também para estar parada, se estiver em pé.
Diz-se em pé porque todo o peso do corpo assenta sobre os pés quando estamos em pé.
Os meus pés estão cobertos de pele.
A pele dos pés às vezes solta-se como a das cobras.
É pele morta que cai porque está pele nova a nascer por baixo.
No verão as pessoas acham nojento ter pele morta a mais nos pés.
No inverno não, porque no inverno ninguém vê os nossos pés.
No verão os meus calcanhares ficam brancos e com risquinhos.
Mesmo que tome banho duas vezes por dia, com sabonete para peles extra secas comprado na farmácia com receita do médico, continuo a ter pele morta a mais nos pés.
E ter pele morta a mais nos pés, especialmente se for nos calcanhares, e eles ficarem brancos e com risquinhos e for verão, é muito feio, disse uma senhora na televisão.
Eu gosto dos meus pés porque eles levam-me a passear.
Às vezes doem-me um bocadinho os pés, especialmente quando acordo e os ponho no chão.
Mas acho que essa dor é a maneira que os meus pés têm de me dizer BOM DIA!
Há pessoas que pagam dinheiro para lhes tirarem a pele morta dos pés.
Raspam com uma lâmina ou esfregam muito com uma lixa, como se os pés fossem de madeira.
Não deve dar jeito nenhum ter pés de madeira.
Ainda assim deve ser melhor do que ter pés de barro, apesar de eu nunca ter percebido bem porque é que é mau ter pés de barro.
Os pés têm unhas como as mãos, mas sobre isso falarei noutra ocasião.

 

* ou vice-versa, ou ambajasduas, ou haverá diferença, ou coiso, não sei, já não sei olhar sem ver.

 

diário #20200601

O meu filho pede-me que compre outra marca de papel higiénico porque “esta tem coisas escritas no tubo de cartão” e por isso “não é tão bom para fazer projectos”. Regressam os drive-ins mas não cessam as ameaças de violência no supermercado, todos são o inimigo. Quanto às máscaras só falta começarem a publicitá-las como vegan, sem glúten e sem lactose. O meu filho odeia perder ao monopólio; ao meu espírito de porco anarquista nunca me interessa muito ganhar, tenho mais prazer em desfazer os latifúndios e patos-bravos de cartão. Regressam as reportagens eméticas sobre o “Portugal profundo”,  emolduradas em banalidades de livro de auto-ajuda. Lembro-me de quando a polícia municipal veio multar o sítio onde eu trabalhava por não ter pago a licença para o “reclame” na fachada e pergunto-me porque não pagam também as pessoas que penduram meninos Jesuses à janela ou bandeiras de clubes de futebol. Vou na página 945 agora sim, em velocidade cruzeiro, quero muito acabar para me sentir triste sozinha, foi uma viagem do caraças, é uma pena que se tenha matado mas também é uma pena que tenha perseguido mulheres, um merdas branco misógino, enfim, e novidades, há? Fui ver e a Ferrante tem mil trezentas e tal nos quatro livros somados, mas sem truques de compressão, que a piada paginada à larga daria para umas mil e setecentas à vontade. Não confundamos as coisas como não comparamos um ventoinha a mousse de chocolate. Como é possível ser-se tão sensível e insensível ao mesmo tempo. Deixei de comer quando não tenho fome, não me dou ao trabalho. Quando me dizem que não posso fazer x pela razão y entretenho-me a congeminar como posso fazer x pela razão z, ou pela razão z-y, se preferirem. Arranjo subterfúgios, buracos, contorno, passo a vau, se necessário. Proibirem-me é o primeiro passo para eu me pôr a andar nem que seja em marcha-atrás. Gosto de ferramentas de corte, mas ultimamente corto-me muito. Quanto mais burros mais conselhos dão, já deve existir designação para uma lei assim, com nome fixado para a posteridade. Como dizia o outro, nunca conheci quem tivesse levado porrada, os meus conhecidos são campeões em tudo. Já eu, apanho as pedras no caminho, encho os bolsos e depois esqueço-me e atiro-me à água como se me bastasse saber nadar.

Dar graças

Tenho de agradecer fervorosamente a todos os homens medíocres que publicaram livros que fizeram sucesso por me fazerem acreditar que também eu posso ser medíocre como eles.

Ó Pedro

O bom das máscaras é que também funcionam para as putas das flores que nos querem matar. E para nos rirmos sem que os outros percebam. E bocejar…