A nova tieta do agreste

Ninguém é insubstituível

Tornei-me essencial à vida de várias pessoas, moldei-me a elas, aos seus feitios, ajudei-as nas suas dificuldades, substituí-me a elas quando precisaram e nunca lhes fiz ver o peso que me punham em cima. De tal forma as encarnei que as pessoas se esqueceram que eu era outra, e continuaram a encostar-se até estarem deitadas sobre mim e eu no chão. E quando, exausta de fazer tudo sozinha, me fui embora, cansada de carregar o mundo às costas, queixaram-se de eu as ter abandonado. Não foi uma nem duas vezes que isto aconteceu.

Querem ver?

O discurso sobre a obra não tem mais valor do que a obra porque é também ele um constructo não havendo nele necessariamente maior verdade do que na obra. A palavra escrita não tem maior legitimidade do que qualquer outro gesto humano significante, um raciocínio lógico não é mais correcto que uma bofetada nas trombas, parem de desvalorizar a arte figurativa ou narrativa e de glorificarem a abstração cambada de boomers maiodessessentaeoitescos filhos da puta.

Não gosto da palavra sexy, no entanto

A hesitação, ao manejar uma ferramenta de corte produz muitos pequenos golpes e um resultado amador. Tal como as palavras, as pinceladas ou as notas músicas, é no golpe certeiro e limpo que se vê quem é ou não profissional. E ter a certeza é muito sexy.

àparte: num concurso de artesãos na televisão a concorrente mostra o seu trabalho e remata, a única diferença entre mim e o mestre é a prática. coitadinha.

diário #20191203

Saí de casa para ver gente e eliminar items da minha lista de recados, pensado que me ia animar. No supermercado os pinhões a 13€ /100g deixaram-me ainda mais deprimida. O supermercado foi renovado, está limpo e cheio de luz, as prateleiras abarrotadas à espera do Natal. Tudo me parece tão caro. Há vários anos que deixei de pôr pinhões no bolo-rei, nem daquele pequenos e redondos que sabem a falso, parece-me imoral dar aquele dinheiro por algo tão simples de criar. Mas os pinhões não nascem em fábricas, saem das árvores ao contrário dos cheetos, doritos e gomas, e outras merdas sintéticas que nascem de parques industriais rodeados por alcatrão e rotundas. Varro os anúncios de emprego e destaco os que referem, nas mais valias de trabalhar naquela empresa o “café gratuito e a fruta fresca”, como lugares onde eu não gostaria de trabalhar, não pelas gratuitidades, mas por acharem que isso é uma oferta de valor. Mais uma acha para o novo PREC, o processo-de-ridicularização-em-curso, em que as empresas cada vez mais tratam as pessoas como crianças ou adolescentes, aliciando-as com os estímulos mais básicos. E o mais triste é que imagino recém licenciados a fazer as contas a quantos cafés bebem por dia e quantas peças de fruta comem e a deduzirem esse valor no ordenado para perceber quanto mais ficariam a ganhar com a benesse. Dói-me o cóccix de estar tantas horas ao computador e vou negociando com o meu corpo o que é que tenho de fazer até poder parar para descansar mais um bocado. Sou boa a fazer muita coisa, sei que não sou modesta, o que também não sou é gabarola para estar sempre a falar disso. Aprendi desde cedo a falar com malucos, naquela língua de horóscopo que nunca compromete e permite o máximo de saídas possíveis para o que quer que diga, cada um interpretando para o lado que lhe é mais conveniente. Eu podia ter sido uma atracção de feira, mas já eliminei os pêlos todos a laser.

Auto-ajuda

Não há nenhum dia em que não pense, pelo menos durante 5 segundos, e inebriada por vapores de auto-ajuda exalados pelas redes sociais, que as dores que tenho são culpa minha. Que o problema é eu achar o mundo um sítio horrível e não ter grande vontade de viver. Que não há sentido em andar aqui, que é tudo vão e inútil. Fico a pensar que o meu corpo sabe disso, sabe o que me custa viver e tenta apaziguar-me, matando-me devagarinho.

Mas o que vale é que não acredito em auto-ajuda, porque se acreditasse, já estava morta.