Uma linha como qualquer outra

Não consigo empatizar facilmente com pessoas propositadamente descuidadas. Lido bem com a burrice e consigo compreender psicopatas porque são metódicos e consequentes. Não consigo entender pessoas inconsequentes e irresponsáveis, que não querem saber e se estão a cagar para os outros, é aí que traço a minha linha.

Livros

Sete Casas Vazias, Samantha Schweblin
Memórias da Plantação, Grada Kilomba
Trick Mirror, Jia Tolentino
How to be a Woman, Caitlin Moran
Wow, no thank you, Samantha Irby
Hyperbole and a Half, Allie Broch
Um cavalo entra num bar, David Grossman
Obras Completas de Maria Judite de Carvalho, volume 1

Comecei o ano com títulos mais sérios e depois tive de ir buscar os cómicos, precisava de me animar um pouco. Encontrei ideias brilhantes em todos. Sete Casas Vazias lembrou-me a Lucia Berlin, pessoas desequilibradas em climas quentes. Um cavalo entra num bar perturbou-me, mais pelo excesso da escrita que pela história, um livro pesado e sufocante, um pouco forçado talvez. Na Caitlin Moran encontrei muitas coisas em que já tinha pensado mas ditas de uma forma hilariante, e uma que me surprendeu verdadeiramente, como o vício da comida é a forma de escape das pessoas que têm de tomar conta dos outros e não se podem dar ao luxo de perder a consciência. O Trick Mirror é muito bom e a Jia Tolentino é muito inteligente e complexa e nada condescendente, tenho umas 30 páginas com cantinhos dobrados. A Samantha Irby é hilariante e honesta, e tem uma doença auto-imune e nasceu no mesmo ano que eu, por isso apesar das muitas diferenças senti que temos tanta coisa em comum. Maria Judite de Carvalho é uma senhora, mas tive de fazer duas pausas pelo meio, é tão dura e magoada, e eu, flor de estufa, não estava a aguentar. Acho que li os cómicos todos e vou passar o resto do ano em baixo-astral, mas enfim, até ao reembolso do IRS não há poder de compra, isto se continuar a ter emprego, so help me god.

diário #20210124

Não tenho nada para dizer, só silêncio. O meu contributo para a sociedade é nulo, prova disso é estar de novo à beira do layoff ou de ficar sem trabalho. Não consigo ajudar por isso tento não estorvar, fico aqui no meu canto quieta e calada para não empecilhar quem é essencial. The days go on and on, they don’t end, já dizia o Travis Bickle. Os anúncios de supermercados com pessoas sem máscara deixam-me agoniada. No Natal fui acumulando livros com sofreguidão, cheguei ao início do ano com 38 novos títulos e achei que era demasiado para um ano inteiro. Janeiro ainda não acabou e já li 8 livros. Evito cada vez mais as redes sociais, apenas faço um passeio higiénico por dia. Esta escolha tem um custo porque os livros são um entretenimento bem mais dispendioso, e já só me sobram 30 até ao final do ano, bom, até à feira do livro, pelo menos, onde espero voltar a abastecer-me com desconto. Surpreende-me sempre a quantidade de pessoas que aparecem nos agradecimentos dos livros, eu nem que quisesse conseguiria conhecer tanta gente. Terei agora de trabalhar a tempo inteiro com uma criança em casa, e só quem nunca o fez sabe como é dilacerante. A culpa de o encher de tv e bolachas para que não me interrompa muitas vezes, eu com a capacidade de concentração de um peixinho dourado, sempre a correr atrás do prejuízo, sempre a sentir-me em falta para com ele e com o empregador. Ansiedade, impotência, monotonia, bato na boca para não falar, não te vais queixar, puta, tem vergonha. Tenho uma nova “bíblia” na mesa de cabeceira, de que leio um ou dois textos por dia. Rezar de Olhos Abertos, do padre Tolentino, não consigo chamá-lo de cardeal, não é assim que o vejo, apazigua-me antes de dormir. Fui votar a seguir ao almoço. Espero que corra tudo pelo melhor.

diário #20210102

Começo o ano com o lavatório da cozinha entupido, no que me parece uma excelente metáfora para 2020, o ano entupido. Eu gosto demasiado de estar em casa, e estar demasiado em casa não me faz bem. Preciso de ser contrariada, não preciso de mais de mim mesma. Nunca fui fã dos fins-de-ano, mas se este ano me ensinou alguma coisa foi que é importante ter marcadores e metas, nem que sejam aleatórias ou simbólicas, ter alguma sensação de ritmo e ciclo que me ancorem a algum lado, quando tudo o resto é líquido. As resoluções de ano novo são as do costume, consumir menos merda em geral, pela boca, pelos ouvidos, e pelos olhos, como os macaquinhos chineses. Ler mais, escrever mais, tá bem, todos os anos a mesma coisa, só sei ser assim. Não sei que livro estava a ler quando tive esta epifania, mas acho que escrevo porque preciso de companhia. É muito difícil ser eu porque todos os dias sou uma pessoa diferente. É estranho, pronto, esqueçam. Aqui vamos nós, no nosso filme desastre tentar chegar ao fim, ao felizes para sempre.

Os correios

Chego à porta dos correios e aquilo parece uma aula de zumba, 30 pessoas de pé no meio da rua à distância de 2 metros umas das outras. Entro para tirar a senha: faltam 40 números para a minha vez. Aguardo lá fora junto dos outros participantes da flash mob improvisada. 1 hora depois sou atendida, pago para enviar cartas que não sei se vão chegar, como já aconteceu em anos anteriores; se quiser ter a certeza que cheguem tenho de pagar mais. É como ir a um restaurante e ter de pagar mais para ter a certeza de que vou comer alguma coisa ainda hoje. Os livros que encomendei no dia 27 de Novembro ainda não chegaram, ainda bem que são para mim e não para oferecer. Enfim, feliz natal.

diário #20201220

Aqueles gangs de velhos brancos ricos e gordos vestidos de fato cinzento com aquela papada de bispo e o convencimento de saberem que mandam no mundo parecem saídos de uma caricatura do Bordalo, filhos da puta que nunca assumem a merda da qual são responsáveis. Estive acordada até à 1:30 da manhã a tentar não ter um ataque de ansiedade distraindo-me com a tentativa de me lembrar do nome de uma especiaria. Não consegui chegar à palavra correcta, só me vinham à ideia palavras em inglês, mas foi o suficiente para me manter relativamente afastada das ideiazinhas-de-pica-miolos-de-merda. De manhã assim que abri o instagram, a primeira receita devolveu-me a palavra que passei a noite a buscar: cardamomo.

diário #20201211

Continuo a ler o Bukowski e a ver Deadwood na HBO. Nos meus sonhos o Swearengen e o Bukowski são a mesma pessoa. “o L_ era um escritor famoso. já era um escritor famoso desde há algum tempo. com livros traduzidos para todas as línguas, até para cagalhões de cão.” ora aqui está uma frase perfeita, tradução de Hugo van der Ding. O Bukowski é toucinho frito, coiratos, uma delícia e um AVC. No outro dia fui fazer puré de batata e como tinha passado vários meses da validade, aumentei a dose de sal, pimenta, noz moscada e manteiga. Ninguém notou a diferença. É também para isso que serve um bocadinho de pornografia a seguir ao jantar, para não se notar que o sexo passou da validade. Pus debaixo da árvore de Natal duas prendas para mim própria, uma de Natal e outra de aniversário. O meu filho queria saber de quem eram e para quem eram os pacotes. Disse-lhe que eram de mim para mim. Ele respondeu que isso não tem piada nenhuma porque já sei o que são e eu disse-lhe que sim, que tem imensa piada receber prendas de que realmente gosto. Eu sei que sou uma pessoa de gostos complicados, tanto gosto das merdas mais simples como das mais rebuscadas. É difícil surpreender-me, especialmente pela positiva. A única coisa que me vai surpreendendo são os before and after do Apartment Therapy. Aqui por casa vou tentando arrumar as coisas, mas neste momento tenho um forte de almofadas e mantas em plena sala. O meu filho foi buscar cds e tem posto músicas que eu não ouvia há mais de 20 anos. Quanta misoginia, meu Deus. Felizmente em 2020 cheguei a um ponto em que posso questionar a minha identidade sem problemas, será que serei não binária por me identificar mais com o que se considera masculino em tantas coisas? Como descobrir? Como saber que não tenho uma visão enviesada? Na escola quando eu tentava defender alguém as professoras diziam sempre, “ela não precisa de advogado de defesa”. Mil vezes ouvi esta frase, até que me calei de vez. Antigamente as pessoas iam saindo das nossas vidas conforme mudávamos de casa, de escola ou de emprego, guardávamos boas memórias delas. Agora não, agora as pessoas ficam constantemente à nossa vista através das redes sociais, até se transformarem progressivamente em imbecis que silenciamos com um botão. Já não ficamos felizes por reencontrarmos alguém que não víamos há anos, agora temos todos a certeza que todos os outros são profundamente imbecis. Nós não.

Ecologia

Nada é permanente, tudo é transitório, amen, já nada se compra, tudo se aluga, amen, não há compromisso com nada, as coisas só se usam enquanto servem, amen, as coisas só servem enquanto se usam, amen, trocamo-las assim que já não estão a cem por cento, amen, lembrem-se disto, vamos salvar o planeta, amen, vou ali atirar-me para dentro de um velhão amen

diário #20201202

Não sinto saudades de viajar, nunca senti grande vontade, nem mesmo quando podia viajar muito. Contam-se pelos dedos de uma mão os sítios onde ainda me apetece ir. Não é motivo de orgulho nem de vergonha, mas tornou-se banal referi-lo. Vi um vídeo do Miguel Tamen a falar e fiquei arrepiada, há dias em que não suporto o sotaque lesboeta, ainda que também eu fale assim. O que eu queria mesmo era conseguir não pensar em nada, limpar a cabeça das parvoicezinhas que me atormentam, dos fait-divers e do bric-a-brac, ora por quem é, mon cher, por obséquio, cha-la-la… Também gosto de dormir todos os dias na minha caminha, o meu sítio preferido do mundo, se calhar é por isso que não sinto falta de viajar. A minha caminha, sim, um bom objectivo para o final de todos os dias.

Notas de uma velha nojenta

pus me a ler o bukowski para variar, não pode ser só CENAITAS AO PODER o tempo todo, uma gaja também tem de saber dar o flanco. ainda estou para saber o que é que aquela amiga minha que me deu o livro disse sobre mim à menina da Bertrand para esta achar que bom mesmo bom era as notas de um velho nojento do bukowski. nã nã nã, não levo a mal, porra o bukowski é o bukowski, mas foda-se a gaja não me conhecia de lado nenhum e a outra chegou lá e disse qualquer merda e a gaja vai e recomenda o bukowski. é que o bukowski não é propriamente recomendável, assim sem mais nem menos à primeira beta que te entra pela livraria adentro, que precisa de um livro para dar a uma amiga, e ainda por cima acerta, foda-se! eu sou o tipo de pessoa que gostava de ser como o bukowski, mas nasci sem colhões por isso hoje de manhã em vez de sair de casa sem tomar banho para ir comprar tabaco e whisky estive a fazer uma bainha num cortinado, txaram, confesso, sem ter ainda tomado banho, sim, aquela merda é fodida, a máquina de coser toda desengonçada, não tava a fazer os pontos bem e eu a anhar, até que não sei porquê lá funcionou, depois, épá, depois não fui ver tv nem fui coçar os colhões para um bar, fui fazer o almoço e bebi aguinha da torneira, oh yeah. pelo meio dei duas consultas de domesticidade, como pôr roupa a lavar para que saia da máquina quase sem precisar de ferro, que nisso sou mesmo como o bukowski, que se fodam as pregas e as rugas e o caralho, quero lá saber se estou amarrotada, já estou velha demais para dar bons exemplos, a outra coisa já não me lembro o que era, que a pessoa não bebe que nem um carroceiro mas não é por isso que não tem brancas. a cena mais fixe do bukowski é que ele diz bué merdas sobre as mulheres mas no fundo o gajo nem é misógino, os amigos dele é que são. apetecia-me mesmo ir para a varanda fumar uma ganza e dar um relax mas hei! chavala! acorda! tens de fazer o almoço e o jantar e o caralho, porra também quero ser poeta, acho que já disse, mas a merda é que os poetas não descascam o grão de bico, nem cortam os legumes para a sopa, a sopa dos poetas é uma merda, só cascalho, diz que preferem o atrito, quem sou eu para duvidar. e não conheço famosos nem in-te-le-que-tu-ais para atirar nomes o ar e fazer de conta que sou culta, nem sou gira nem sei fazer cara de tempo psicológico para as fotos dos suplementos culturais da nação. purtantus, CAGUEI! e se há merdas que me afligem, cum caralho tudo me aflige, ainda ontem me lembrei, merda mais ridícula é impossível, eu na banheira grávida de 200 semanas, a fazer contorcionismo sem ver nada para rapar a pintelheira porque Deus nosso senhor nos proíba de aparecer no hospital com um pintelho por rapar, fora do sítio, um que seja, rebelde e selvagem, quem é esta badalhoca que aparece aqui com UM, umzinho pintelho por rapar. não, juro que não estive a beber, só água da torneira que por sinal cheira cada vez mais a cloro, já vamos com a tripa limpa e desinfectadinha por dentro para a cova e aposto que, tanto tempo que eu estive para aqui a escrever de jacto coisas sem nexo como o outro, estava eu a dizer, aposto que já é hora de comer outra vez foda-se lá vou eu para a cozinha, come resto piquena, come restos, que não há mais metafísica no mundo do que restos, e o caralho, viram o que eu fiz, viram, viram, é a cOLTURA Stúpidos, cHUPEM-mos!

diário #20201201

Não percebo porque há tanta poesia sobre romãs; nunca comi uma romã doce, vá, moderadamente agradável. São trabalhosas, sujam tudo, deixam sempre um amargor na boca, os taninos demasiado intensos, também eles responsáveis por tingirem tudo de escuro. Adivinho apaixonados antes de eles próprios o saberem, como se denunciam por inflexões na voz, olhares sorridentes e maiores rigores no cuidado com a pele. Podia fazer vida de vidente, cobrar dinheiro por isso, a menina é muito forte a detectar padrõezinhos. A verdade é que estou furiosa. E quando estou mesmo muito furiosa fico calma, muito calma por fora, é a única maneira de não desatar a partir tudo. Neste Natal não haverá prendinhas handmade para ninguém, estou farta de tentar domar os tremores das mãos para as tarefas mais básicas. Não farei decorações nem bolachinhas nem as merdices do costume. Não é o tempo adicional que demoro a fazer as coisas que me exaspera, é saber que não consigo fazê-las como as fazia antigamente. Portanto vai ser Natalinho consumista para mim, vai me permitir passar mais uns dias em paz sem ter de lidar com a decadência das capacidades motoras. Tenho na carteira as mesmas moedas desde Março. Deixei de seguir o gráfico do covid quando o eixo dos y começou a aumentar diariamente. Viver em negação está-se a tornar uma das minhas especialidades, aprendi com uma série de maus exemplos à minha volta para quem as coisas não existem se não falarmos delas. Recomeço a ver o This is Us, com a urgência de me sentir amparada, e não me desiludo, finalmente vejo pessoas de máscara na televisão, pessoas que lidam com o dia-a-dia, que tomam medicamentos para o resto da vida, que também fazem 40 anos. Lembrei-me de quando ia chorar para a casa de banho do emprego e cantava a canção do Salvador Sobral que ganhou a Eurovisão para me ajudar a parar. Gostava de ser como aquelas pessoas justas e sóbrias, de alegria contida, que agradecem e sorriem apesar de viverem num sofrimento incrível. Como bem canta a Fiona, Evil is a relay sport, foco-me agora em não passar aos outros os males que me afligem. As pessoas espantam-se quando fazemos algo pelos outros, nem que seja poupá-los à nossa presença, as pessoas que não fazem nada pelos outros espantam-se por alguém se preocupar com algo fora delas. Eu consigo acreditar nas pessoas, mesmo que não acredite no que elas dizem. Clarifico: posso acreditar que a vivência delas é real apesar de não acreditar nos factos. Um bocado como os psicólogos que nos estão sempre a dizer que o importante não é a verdade dos factos mas o que eles nos fizeram sentir. Se sentimos algo não o devemos deitar fora, mesmo que saibamos que não é verdade, provavelmente ainda nos servirá para qualquer coisa, nem que seja para cismar por escrito. Tenho pena das pessoas da certezas, as que sabem que o que os outros sentem está errado, perdem tanta coisa. Eu cá acredito no que sei que é falso desde que por interposta pessoa. É esquisito mas é assim. Para tragédias já basta uma encomenda de chouriços e paios que se perdeu nos correios.

diário #20201124

Irredimível é a palavra que hoje não me sai da cabeça. Os erros que ninguém deixa esquecer mesmo que se tenha pago bem caro por eles. Andar de peito feito cheio de má fé é tão 2018. Devia haver mon chéris do tamanho de pacotes de manteiga. Recrio uma cidade nas assoalhadas do meu apartamento de subúrbio, almoço no restaurante da cozinha, trabalho ao fundo do corredor e às 18:30 percorro-o de regresso a casa. A partir dessa hora esforço-me por fazer voz de entusiasmo para com as novidades que o meu filho me traz. Respiro fundo depois de o deitar e vejo uma série qualquer que não me faça pensar muito. O dia passa, tudo passa, até a vida, mas alguns erros não.

diário #20201112

Duas semanas de merda passaram e eu não saí do sítio, shoveling shit from a sitting position como diz o Stephen King. As máscaras fazem-me borbulhas na cara, falho aos meus amigos, queria ser mais mas não consigo. Tenho saudades de rezar, por isso peguei no livro do padre Tolentino (eu sei que é cardeal mas não me parece elogioso chamá-lo assim), ler poesia é o mesmo que rezar, apazigua-me. Tenho pena de não acreditar. Agradeço aos poetas e peço misericórdia. Ando por aí a agradecer às pessoas, sem vergonha nenhuma. É o que se acontece quando se chega a velho e não se tem mais nada para dar. Não sei o que limita as pessoas, só sei o que me limita a mim: o cansaço, as preocupações, as doenças, a ansiedade. Não carrego fardos pesados, e os que carrego aprendi a pô-los num carrinho de mão; o esforço é menor, mas temos de estar sempre atentos para que não adorne. Há momentos em que não sei se vale a pena continuar a desempenhar maquinalmente as rotinas: a trabalhar, a lavar os dentes, a telefonar à família, a mudar de roupa de cama. Não sei se devo já aproveitar tudo o que resta antes que tudo o que resta acabe. Porque teremos nós melhor sorte do que os que já morreram? “Se fizeres tudo bem, vai correr tudo bem” morreu no século passado mas ainda não foi enterrado. Eu não posso ser artista porque tenho de encontrar um significado em tudo, porque não tenho certezas, porque nada me é óbvio e bastante. Eu também quero ser poeta, porra! Dizer coisas com convicção e verdade e acreditar nelas. Quero ser importante, declamar em voz alta e aparecer nas revistas, ter uma profissão de prestígio, quero que gostem de mim, quero ter um nome com dois apelidos, uma assinatura ilegível e monograma bordado na roupa interior. Não quero nada. Quero uma manta e uma lareira e definhar lentamente ao som dos pássaros, se ainda os houver. Só quem já é famoso é que pode escrever, eu sou só um narrador não fidedigno dos meus dias.