diário #20220115

Não é possível “fazer poesia” (as aspas são o condimento dos incompetentes que não sabem explicar adequadamente o que querem dizer) e devolver atempadamente, limpos e vazios, todos os taparuéres que aparecem cá em casa cheios de comida. Será possível, mas por alguém que não eu. Na última semana, por ter estado sol, aproveitei meia hora do almoço para me sentar na varanda a apanhar com ele nas fuças, na esperança de melhorar qualquer coisa. Sinto que andamos a jogar a “quem é o último a apanhar covid”, tornou-se uma inevitabilidade que vou tentando adiar. Apesar de vacinada não sei como o meu sistema imunitário, propositadamente diminuído por medicamentos, lidará com o vírus. Nem sei sequer se a vacina, pelas mesmas razões, terá produzido o efeito pretendido. Enquanto folheio a web, páro numa foto, talvez a mais conhecida de Simone Beauvoir, e registo que usa brincos compridos e um colar volumoso. Enquanto chafurdava em papéis, encontrei recibos de vencimento antigos. Em Março de 2006 (trabalhava há 3 anos) ganhava 1200€ brutos, 918€ líquidos. Pagava 8€ de água, 30€ de electricidade e a gasolina 95 estava a 1,28€. Nesse ano comprei a minha primeira casa e pagava ao banco cerca de 190€ por mês. Vivia sozinha e fazia uma vida desafogada. Agora ganho menos, tanto brutos como líquidos, e quanto ao resto não preciso de dizer mais nada. Quando me pedem opiniões tenho muitas vezes dúvidas se devo ser honesta ou ser gentil; mudei radicalmente a minha opinião nos últimos anos, não por generosidade para com os outros, mas porque ser sempre honesta dá demasiado trabalho. Em 90% dos casos acho que as pessoas preferem que sejamos gentis do que honestos, apesar de dizerem o contrário. O difícil é perceber quais são realmente os 10% de vezes em que precisam mesmo que sejamos honestos. Neste ponto da vida, sensivelmente a meio na melhor das hipóteses, aceito que é tempo de me livrar de coisas em vez de acrescentar, é tempo de ir seleccionando o que resta para quem cá fica. Dar as roupas que não visto, os livros que não leio, organizar as tralhas que fui acumulando, e outros antes de mim, para que não estorvem o que resta do futuro. Fui ao Lidl às compras e aproveitei para comprar umas calças pretas, porque as que tinha já estavam disformes e manchadas. Neste ponto da vida, sensivelmente a meio na melhor das hipóteses, convém ter sempre umas calças pretas limpas e prontas, um casaco preto de bom corte e uma mala preta discreta para acompanhar.

A burra velha

Comprei um curso da Domestika num daqueles impulsos irracionais de mudança, na crença de aprender qualquer coisa que faça alguma diferença. Ora o curso estava por encetar desde novembro e eu com vontadinha nenhuma. Lá me obriguei no fim de semana a lançar-me na empreitada. Para que é que eu ainda me meto nestas coisas, que burra, é que não aprendo mesmo.

Um penedo

Quando já não via quase nada e pouco se mexia, já passados os cem anos de vida, a minha bisavó, cuja cabeça funcionava melhor que do que as de todos os descendentes, dizia amiúde, por não conseguir ajudar na lida da casa, “estou aqui pareço um penedo”. Assim estou eu aqui hoje, um penedo.

diário #20220110

Sinto que estou a perder aos poucos a perspicácia e o sentido de humor. A curiosidade e o entusiasmo foram sem deixar rasto. Já nem me resta o tédio, só a apatia. Fica-se aqui como o relógio de cuco, a abrir o bico a horas certas e a ir espreitar à janela para recolher pouco depois. Não há dias, há uma amálgama de horas que parecem todas iguais. Já nem o trabalho, por entre paraísos tropicais e gramáticas infantis, me distrai o suficiente. Fantasio com piscinas cheias de cloro e pouca gente, com sessões de cinema às 19h directas do trabalho, com os dedos enterrados na areia a escaldar, com o balanço e o ruído do comboio que me embalam a leitura. Estamos vivos, já é bom. Se nuns dias o privilégio parece imenso, noutros nem tanto. Aguenta-se, então não se aguenta. Ver o tempo passar é fácil, hoje há gaivotas por aqui, é só segui-las com o olhar. Nem para me distrair tenho arte, é tudo tão dispensável. Verifico as horas; mais uns minutos e o miúdo chega a casa, satisfeito por ter voltado à escola. E eu só tenho de fazer de conta que hoje me diverti também.

diário #20220109

Estou quase a terminar “A segunda vida de Olive Kitteridge”, sempre agradável mas mais duro do que o primeiro. Entretanto li uma biografia da Courtney Love, escrita em 1997 e o que me apraz comentar é o que a minha mãe dizia quando chegava a casa das reuniões de pais “depois de conhecer os pais, muito bons são os miúdos.” Estava a ler a gigantesca entrevista a António Franco Alexandre no ionline e os nervos que aquele site me dá, sempre a refrescar a página e a mandar-me para o início do artigo, e eu a scrollar infinitamente para baixo até ao ponto onde estava a ler, para daí a uns minutos acontecer o mesmo, deixam-me louca. Se alguém souber de algum truque para aquilo não estar sempre a voltar para cima que ensine aqui a burra porque eu gosto muito de ler o Vaz Pinto mas aquilo rebenta-me com os nervos. Passo os dias a trabalhar à janela a ver arco-íris e aviões a chegar, e como dizia o Travis Bickle, “the days go on and on, they don’t end”. Movo-me do quarto para a sala para a cozinha e de volta à sala e ao quarto, com breves passagens pela casa de banho e uma saída semanal para as compras. E se tudo o que faço é trabalhar e consumir, tudo o que sou é uma consumilaboradora. Leio uns livrinhos mas não me iludo, também isso é consumo.

Ecologia, Joana Bértholo

“A saúde é a moeda de troca. O corpo vigiado é a nova compulsão. Os consumidores querem saber as calorias que ingerem e quantos passos dão e, se lhe oferecemos outros sinais biométricos, imagine, rastreio prematuro de doenças, perder peso facilmente, bom humor constante — os exemplos são múltiplos — dão-nos o que quisermos.”

“— Ouve, Ana. As pessoas só mudam se tiverem mesmo de mudar.
— Sem alternativa.
— Exacto! Têm de se sentir encurraladas. Ameaçadas. Medo, medo, precisamos de medo!”

“Nas colónias africanas, parte do processo de «assimilação» era uma prova que passava por demonstrar ser-se católico praticante, dormir numa cama, ter o exame da quarta classe, ter uma só mulher, comer com faca e garfo — e falar bem o Português©.
Temos de nos perguntar quanta violência ou dominação foram necessárias para o idioma de um país tão pequeno ser hoje o quinto mais vendido do mundo, com mais de duzentos e oitenta milhões de Consumidores.”

Este livro é de 2018, mas parece ter sido escrito em 2023. Não percebo como não é um bestseller, não percebo como é que não recebeu todos os prémios que merece. Se tivesse sido escrito por um americano ia estar nos tops durante meses. É grande e inquietante, e não é sobre ecologia no sentido estrito em que habitualmente usamos o termo. É sobre a linguagem e como ela molda as nossas vidas. Cinco estrelas, uma lagosta, um presunto e uma lampreia de ovos. Leiam isto já.

Why I write, George Orwell

“The great mass of human beings are not acutely selfish. After the age of about thirty they abandon individual ambition — in many cases, indeed, they almost abandon the sense of being individuals at all — and live chiefly for others, or are simply smothered under drudgery. But there is also the minority of gifted, wilful people who are determined to live their lives to the end, and writers belong to this class. Serious writers, I should say, are on the whole more vain and self-centered than journalists, though less interested in money.”

Cassandra

“The story of Cassandra, the woman who told the truth but was not believed, is not nearly as embedded in our culture as that of the Boy Who Cried Wolf — that is, the boy who was believed the first few times he told the same lie. Perhaps it should be. (…) Not uncommonly, when a woman says something that impugns a man, particularly a powerful one (not a black one unless he’s just been nominated for the Supreme Court by a Republican president), or an institution, especially if it has to do with sex, the response will question not just the facts of her assertion but her capacity to speak and her right to do so. Generations of women have been told they are delusional, confused, manipulative, malicious, conspiratorial, congenitally dishonest, often all at once.”

https://harpers.org/archive/2014/10/cassandra-among-the-creeps/

Pepitas de chocolate

Continuo a achar que a melhor maneira de convencer alguém a ler um livro é dar-lhe um excerto bem escolhido da obra. Não me parece que as editoras explorem adequadamente este recurso. Talvez não o façam por causa do papão do copyright, a obra é sagrada, não se pode dar borlas. Procurando bem, todos os livros têm frases para todos os públicos, passagens que descontextualizadas se tornam facilmente em lugares-comuns, banalidades instagramáveis e mantras de auto-ajuda, memeficáveis e viralizáveis. Que horror, isso é um crime, dizem vocês, pois é, mas livros por ler é um crime ainda maior.

As mães como as famílias de Tolstoi

O meu filho rasga as calças nos joelhos e eu coso remendos para não parecer mal. No fundo coso os remendos para não parecer má mãe. Porque não o deixo ir roto para a escola e castigo os dedos horas a fio a coser remendos? Há muitas maneiras de ser má mãe, mas apenas uma de ser a mãe perfeita.

diário #20220101

A janela está virada a nascente e cada vez que puxo as cortinas elas rasgam-se mais um bocado. O sol foi fragilizando progressivamente o tecido até chegar a este ponto. Não me apetece gastar dinheiro com umas cortinas novas porque sei que lhes vai acontecer o mesmo. Mas também não me apetece olhar todos os dias para as cortinas rasgadas porque são uma marca do meu falhanço em reparar o mundo. Não tenho com quem conversar irl. Infelizmente também não tenho dinheiro para ir à psicóloga só para ter com quem conversar. Agora que já não tenho dores apetece-me voltar a nadar mas depois lembro-me que a água da piscina é fria e encolho-me toda. Associo a memória do frio, de que ainda não me livrei, à dor. Todos os dias tento ser outra pessoa. Alguém que saiba quando parar e que não tenha medo de ser responsabilizada pelo que diz. Que saiba distinguir o público e o privado. Que não use o telefone como escudo e que saiba desfrutar do silêncio irremediavelmente corrompido pelo contínuo apito nos ouvidos. Tenho a panela da sopa ao lume. Devia fazer mais qualquer coisa para o jantar mas não sei o quê. Ter de fazer comida todos os dias corrói-me o ânimo. Achei que o meu problema era não ter objectivos, por isso decidi que ia ler setenta livros em dois mil e vinte. Como exímia autosabotadora consegui ler sessenta e nove. Agora acho que devo mudar de objectivo e ler apenas o que me está a saber bem, sem fretes, sem contar páginas e sem contar livros. Comecei por A Segunda Vida de Olive Kitteridge porque sei que vai ser confortável regressar. Acumulo coisas e ideias e quando me sinto assoberbada pelo excesso acumulo listas de coisas e de ideias. Sei que não hei de ir a lado nenhum, não é isso que me preocupa. O que me mói é desconhecer A forma mais eficiente de dispor do tempo. Como se a vida tivesse uma resposta certa. A sopa já deve ter transbordado da panela.