The Liars’ Club, Mary Karr

“The lady in Chicago survived, she told me, through stories. Which is at the core of traditional therapy: retelling the family saga. Talk about it, the old wisdom says, and you get better. From narratives about childhood, this woman manufactured a self, neither cut off from her past nor mired in it.”

“Happiness was for boneheads, a dumb fog you sank into. Pain, low-level and constant, was a vigil you kept. The vigil had something to do with looking out for your own death, and with living in some constant state of watchful despair.”

“Rotten cocksucking motherfucking hausfrau.”

Ultimemente tenho lido muitas memoirs, atraem-me cada vez mais. Não que a ficção não tenha os seus méritos mas a maior parte é tão organizadinha que me aborrece que tudo encaixe tão bem. The Liars’ Club lembrou-se a Lucia Berlin, de que gosto tanto. Famílias disfuncionais, já dizia o Tolstoi.

Estou viva, estou viva, estou viva – dezassete encontros com a morte, Maggie O’Farrell

“Podia ter dito que tenho um instinto para a deflagração de violência. Que, durante muito tempo, eu parecia inspirá-la em outros por motivos que nunca cheguei a compreender. Quem apanha estalos e murros, em criança, nunca se esquece da sensação de impotência e vulnerabilidade, de como uma situação pode passar de benigna a brutal num piscar de olhos, num instante. Esta sensibilidade passa a correr-lhe nas veias, como anticorpos. A prende rapidamente a reconhecer a aproximação destes atos súbitos de ataque: aquele timbre ou aquela vibração particulares na atmosfera. Desenvolve antenas para a violência e, mais tarde, cria um repertório de meios a defletir.”

Assim que peguei nele não consegui parar de ler, são 17 pequenas histórias verídicas em que a autora nos conta como quase morreu. Angustiante mas também libertador, sobretudo se já tivermos estado ali, numa daquelas situações, sem saber tão curta a distância entre o aqui/agora e a morte. Muito bom, muito bom, muito bom.

De Noite Todo o Sangue É Negro, David Diop

“Mas pensei no meu velho pai, na minha mãe, na voz interior que ordena, e que não soube cortar o arame farpado dos meus sofrimentos. Não fui humano para com Mademba, meu mais do que irmão, meu amigo de infância. Deixei que o dever ditasse a minha escolha. Não lhe ofereci mais do que maus oensamentos, pensamentos comandados pelo dever, pensamentos recomendados pelo respeito das leis humanas, e não fui humano.”

“Ninguém sabe o que eu penso, sou livre de pensar o que quiser. O que eu penso é que querem que eu não pense. O impensável está escondido sob as palavras do capitão. A França do capitão tem necessidade de que nos tornemos selvagens quando isso lhe dá jeito. Tem necessidade de que sejamos selvagens porque os inimigos têm medo dos nossos machetes. Eu sei, compreendi, não é assim tão complicado. A França do capitão tem necessidade da nossa selvajaria e como somos obedientes, eu e os outros, fazemos de selvagens.”

A violência e loucura da guerra, o racismo, a humanidade e a compaixão. Demasiado pequeno (queria continuar a lê-lo depois de ter acabado) mas muito intenso.

Cidade Infecta

A meio da semana comecei a ler o Cidade Infecta da Teresa Veiga (comprei-o porque há uns tempos tinha gostado do Gente Melancolicamente Louca). “De uma vez não resistira e levara a audácia ao ponto de entrar na sala da televisão quando calculara que os quatro pares de olhos estavam literalmente colados ao aparelho.” Repugnou-me de tal forma esta frase que larguei o livro imediatamente como se tivesse peçonha.

diário #20220412

Estou na cama há quarenta e cinco minutos. Tenho o pijama vestido, umas meias felpudas e uma sweat comprida que me dá quase pelos joelhos. Estão vinte graus dentro do quarto. Estou coberta com um edredon e uma manta polar por cima. Continuo gelada. Enfio a cabeça por baixo do edredon, as mãos nos bolsos, esfrego os pés para gerar calor. Entrei na cama há quarenta e seis minutos e ainda tenho frio. Terei sangue a circular pelo corpo? Baterá ainda o meu coração?

Uso pijamas de homem para poder dormir com as mãos nos bolsos. Coço as costas e arranco as crostas das feridas que fiz ao coçar-me da última vez. O soutien já tem pinguinhas de sangue seco. Depois do banho uso o secador para que a cabeça não congele e sem querer transformo-me numa Madalena Iglesias feia. Há uns tempos comprei uns sapatos de sola preta que riscam o chão. Tenho dificuldade em falar em voz alta, passo o dia calada, enrolo a língua e os sons não saem como pretendo. Cosi as alças de todos os soutiens para estarem sempre na posição certa. Coço o pescoço, arranco crostas, faço sangue. Vou pelo caminho que me tornará amarga e ressentida, faço tudo por obrigação. Doem-me as costas até quando respiro. Quero ser irresponsável, porra!