Eu devia

Escrever um livro chamado “eu devia”.

Perdi o comboio, vou chegar atrasada à aula. Eu costumava detestar que pessoas que não me conhecem me cumprimentassem com beijinhos. Preferia apertos de mão. Agora detesto apertos de mão, as pessoas acham que têm de apertar a mão com força para não parecerem conas-moles e magoam-me os dedos. Perdi o comboio, cheguei atrasada à vida.

Os Pinóquios

Acabei de ler o “Perto da Felicidade” do Richard Yates. Já me vergastei várias vezes pelo dinheiro mal empregue, mas em minha defesa era fininho e bom para andar na mochila nos transportes públicos. Fico de castigo, duas vezes sem jogar e proibida de comprar livros de pessoas com cara de director financeiro de um banco português falido.

Se eu fosse um crítico dos jornais o título era logo “Perto da Banalidade” e pronto, estava arrumado. Mas como eu sou uma pessoa chata e retorcida, e “derivados” não só, mas também, do exposto no post anterior, passo a desenvolver. Resumo da história: (e não tenham medo de spoilers porque não acontece nada de jeito portanto podem ler à vontade, até porque me parece ser o tipo de enredo que se aplica a 754 livros e filmes de autores homens americanos brancos de meia idade) um gajo com a mania que é rebelde gosta de conduzir carros e depois engravida uma gaja e depois bebe umas cervejas e depois separa-se da gaja e depois continua a andar de carro e bebe whisky e depois conhece outra gaja e depois anda de carro e bebe cerveja e a gaja fica grávida e depois o gajo anda de carro e bebe mais cerveja e mete lhe os cornos e anda de carro e bebe whisky. As personagens femininas são tão estereotipadas como as cartas de um baralho de tarot: a bêbeda, a maluca, a mocinha e a cabra. É tudo muito white e muito boring e muito vanilla, mas tudo muito pomposo com aqueles homens pensativos, cheios de whisky e dilemas existenciais da treta, tipo pinóquio, sempre a questionarem-se, apesar da evidente cara-de-pau, se são homenzinhos de verdade (um dedinho enfiado no cu de vez em quando não lhe faria nada mal, mas quem sou eu para sugerir mais e melhor sexo como remédio para uma melhor performance artística, ai espera, ele não é uma gaja para podermos dizer que é mal fodida, pronto esqueçam lá isso).

Aqui está mais um exemplo proveniente da fábrica “escritor/manequim-da-rua-dos-fanqueiros” que foi o Iowa Writers Workshop em meados do século passado, o altar do homem regisconta da escrita, que caga romances periodicamente, todos iguais, mas todos muito elogiados e muito sim senhor isto é que é escrever à homem. Tão entusiasmante como um banco de cosinha*, que, por acaso, também é de pau. Dou duas caricas e meia.

(*ver post anterior)