Gilead, Marilynne Robinson

“É um dos melhores traços das pessoas boas, que amem quando têm pena. E isto é mais verdade para as mulheres do que para os homens. Elas são assim arrastadas para situações que lhes são prejudiciais. Vi isso acontecer muitas, muitas vezes. Sempre tive dificuldade em encontrar uma maneira de prevenir contra isso.”

Talvez este seja um dos livros mais surpreendentes que li este ano. Passado na América profunda entre os profundamente crentes, mostra uma faceta da religião que o meu preconceito, ou que as formas mais populares e visíveis da religião não me tinham permitido conhecer. Uma escrita humana, serena e mística, sem banalidades, moralismos ou folclore cristão. A simplicidade, integridade e subtileza da escrita de Marilynne Robinson é apaziguadora e calmante. Um livro muito bonito.

(Agora vou ter de ler os outros “Casa” e “Jack” também sobre a família do reverendo Boughton)

To play

Depois de, na página anterior, um parágrafo a descrever um jogo de basebol:

“…e os Cubs estavam a tocar Cincinatti.”

Não basta ser culto, saber escrever e conhecer bem a língua, às vezes também é preciso saber chafurdar na banalidade do quotidiano.

Fugir

“Muita gente quer fugir, mas quem foge de facto raras vezes anuncia, vai simplesmente.”

O Desassossego da Noite, Marieke Lucas Rijneveld

(nas férias de verão, enquanto lia um livro sentada no centro comercial, à espera que o meu marido saísse do hospital para o ir buscar, uma mulher toda vestida de preto sussurrava furiosamente ao telefone, zanzando à minha volta e ameaçando o interlocutor “eu não te admito, se me voltas a faltar ao respeito nunca mais me vês, eu não estou para aturar isto”)

Relaxado

“No começo do ano segredou-me que eu confundia «relaxado» com «desleixado». Estava obviamente a falar do meu casaco. A Eva é dois anos mais velha e parece perceber do que os rapazes gostam nas raparigas e como devemos agir.”

O Desassossego da Noite, Marieke Lucas Rijneveld

(Na aldeia dos meus avós a palavra «relaxada», pronunciada «relaixada», significa sempre desleixada. Cresci portanto a achar que relaxar é o mesmo que desleixar. Acabei de ter uma pequena epifania.)

Se não leram este livro, leiam. É perturbador e mesmo muito bom.

A praia

As espanholas reformadas chegam à praia com os seus brincos de pérola, saudando-se com estardalhaço de papagaio enquanto montam as cadeiras. Usam palas na cabeça que deixam o cocuruto à mercê do sol. Um dos poucos homens presente fuma cachimbo. Pergunto-me até quando as pessoas fumarão cachimbo, quem será a última pessoa do mundo a pôr o cachimbo de parte. No areal veraneantes andam de um lado para o outro. Dentro de água montam-se em pranchas, insufláveis e geringonças a pedal. Alugam barcos que as arrastam velozmente à superfície da água montadas em bananas, donuts e pranchas. O cheio do gasóleo dos barcos enjoa-me. Dão metodicamente ao pedal para encher de ar umas chatas estreitas em cima das quais se põem em pé, cavando a água com um remo, deslocando-se, quais coveiros itinerantes, sem rumo e para entretém. A água está fria, a areia está quente, sic transit gloria mundi.

AI

A inteligência artificial não é senciente, limita-se a reproduzir discurso, como todo o bom empreendedor, fake till you make it, faz de conta até toda a gente acreditar que realmente o faz.

Mas não será isso o existir de hoje em dia? Produzo discurso, logo sou?

3 vezes e estarás livre

Nas últimas semana apareceu-me várias vezes ao caminho a mesma frase: did you have a happy childhood or are you funny? Eu já tive muita piada, agora já não tenho, será que é sinal que ultrapassei o que restava? Já não acho piada a quase nada mas também não me ofendo, passa-me a maior parte ao lado como um ruído de fundo. É um privilégio, sem dúvida.