diário #20210610

Comprei um pacote de sementes no Lidl e lá dentro vêm uns pinhões arredondados que mais parecem carraças. Estou quase a ver-me livre da necessidade de exigir aos outros, da mesma forma como sempre me exigiram a mim. Ainda me falta aprender a não ver tudo como uma obrigação, mas lá chegaremos. Já cortei com o hábito de tentar fazer tudo perfeito, fui me deixando errar bastante para me habituar e não estou arrependida. Tenho ainda de aprender a receber elogios sem os deflectir e sem parecer arrogante. Achei que deixando de beber café iria tremer menos, mas isso não aconteceu. Já tive vergonha que me confundissem com um alcoólico até tomar consciência que nada em mim é superior a um alcoólico e que por isso não devo ter vergonha nenhuma. Ao ler um texto muito mal traduzido lembrei-me do que um professor que tive costumava dizer “uma orquestra dirige-se, um filme realiza-se, das mentiras apercebemo-nos”. Apercebi-me esta semana, por causa da quantidade de colegas que estão de férias, que não é o excesso de trabalho que me stressa, mas o constante ping! do email e do chat que usamos para comunicar. Na tv os mesmo entrevistam os mesmos, num 69 perpétuo. Por todo o lado escândalo e gozo com o artista que produziu e vendeu uma obra imaterial. Como se todos os dias não se comprassem e vendessem bens imateriais, como se um fato da Boss feito em Santa Maria da Feira fosse igual de um fato da Maconde feito em Santa Maria da Feira, como se um quadrado com fita adesiva no chão fosse muito diferente de um urinol ou um quadrado preto pintado sobre um fundo branco, como se não existissem indemnizações por danos morais, como se todas as Start-ups valessem o dinheiro que os fundos de investimento lá enterram, como se resolver certos problemas com dinheiro não fosse apenas uma forma de manter a imaterial sanidade mental, como se 1 milhão de seguidores no instagram não tivesse qualquer valor, como se o acto simbólico de comprar uma coisa só porque se pode não fosse a cereja no topo do bolo do late-stage-capitalism. Mais do que estar com pessoas, sinto falta da aleatoriedade, de ouvir conversas nos transportes públicos, de ver sítios novos e coisas casuais a acontecerem. Da janela vejo os gladíolos da vizinha, que de tantas flores e tanto peso se projectam na horizontal em vez de na vertical. Nunca tinha tido a experiência de ver um texto meu editado (não no sentido de publicado, mas sim analisado e melhorado) por um profissional, e é, como diria o Fernando Mendes, um espectáaaaaaaculo.

Rapariga, Mulher, Outra


terá de passar horas ao telefone a ouvir a mãe lamuriar-se
porque ela é a psicóloga da mãe, sempre foi e sempre será
é esse o fardo dos filhos únicos, pior ainda se forem raparigas
que, por natureza, são mais de cuidar.

de Rapariga, Mulher, Outra, Bernardine Evaristo

Não sei porque demorei tanto tempo a pegar neste livro, talvez por ser pesado e me doerem os braços, tomo decisões baseadas em pequenos nadas como este, ridículo. É um livro cheio de humor e compaixão, que mostra a diferença apontando para o que é comum. Devia ser obrigatório, acho que já disse isto demasiadas vezes sobre demasiados livros. Tenho cada vez mais dificuldade em falar de livros de que gostei muito, devia usar um ranking com estrelinhas eu sei, olhem, vale um leitão, um presunto, uma travessa de ameijoas e 2 sapateiras com torradas com manteiga.

Set, game, match

Quando é que uma relação se torna insuportável? É preciso uma grande afronta, ou pequenos nadas todos os dias conseguem destruí-la? Qual o limite da auto-estima? Em que momento a vantagem de estarmos acompanhados deixa de compensar a desvantagem de sermos mal-tratados? Todos temos pontos-de-não-retorno diferentes e nem sempre sabemos quais são até chegarmos lá.

https://visao.sapo.pt/atualidade/sociedade/2021-06-04-o-pequeno-bully-uma-historia-de-bodyshaming/

(obrigada à Mariana, por me chamar a atenção para isto.)

diário #20210606

Apercebi-me que há sempre algo desagradável em tudo o que escrevo. Revelo sempre mais do que devia, mas não tenho por objectivo chocar. Se é para escrever, mais vale tentar dizer alguma coisa que ainda não tenha sido dita, mesmo que não o consiga. Se sou desconfortável, é porque o conforto não me faz pensar. Invariavelmente corro à volta de mim própria procurando morder o rabo. É muito cansativo ser adequada, já o tenho de fazer demasiadas vezes para ainda ter de escrever assim. Gostava de ser daquelas pessoas genuinamente boas que vêem beleza e bondade em tudo. Eu vejo padrões em tudo, como os malucos. Nos filmes, quando as pessoas têm pesadelos, levantam-se abruptamente e abrem muito os olhos, ficam sentadas na cama a respirar rapidamente. Nunca faço isso e tenho dificuldade em acreditar que a maior parte das pessoas o faça. Em adulto, o sexo parece-se cada vez mais com esgrima, um desporto para entreter, e não uma luta de navalhas entre a vida e a morte, como na adolescência. A necessidade foi-se, divertimo-nos e temos prazer e isso terá de bastar. A maior parte das fotos no meu telefone são printscreens de livros recomendados por pessoas que vou recolhendo em entrevistas e contas de instagram. Estou a ler demasiados livros ao mesmo tempo. Comecei o “Pintado com o pé” não-ficção da Djaimilia Pereira de Almeida, mas ainda não consegui terminar, os dois últimos ensaios que têm origem nas teses de mestrado e doutoramento da autora, são demasiado complexos e abstractos para os conseguir ler à noite antes de dormir. Comecei então o “Rapariga, Mulher, Outra” da Bernardine Evaristo e é muito muito bom. Entretanto aproveitei uma promoção para comprar em ebook um livro que queria ler há muito tempo, mas que era demasiado caro, “How to do nothing — Resisting the attention economy” da Jenny Odell, e já vou a meio, trouxe-me bastantes inquietações sobre este modo em que vivemos, abdicando do controlo da nossa atenção. Lembrando-me da velha máxima em publicidade “if the product is free, the product is you” apetece-me deixar de consumir coisas grátis, voltar a ter o controlo sobre o que quero ou não ver, não emprenhar pelas orelhas só porque é de borla, mas também percebo que é uma luta inglória, um jogo viciado em que já é demasiado tarde para as minha opções terem impacto no que quer que seja. Vou refazendo a lista para a Feira do Livro e aguardo serenamente a minha vez de ir à pica.

Meia-idade

Perceber que só voltarei a ver certas pessoas em funerais, e como aquelas casas de apostas macabras começar a fazer listas mentais de quem morrerá a seguir.

Very Stable Genius

Começo a duvidar da minha sanidade porque me sinto demasiado estável (os malucos são os únicos que acham que não são malucos). Os comprimidos de Omega-3 devem estar mesmo a fazer efeito, em breve serei uma pessoa normal, sem quaisquer dúvidas ou enganos. Enfim, uma cavaquinha.

diário #20210528

O filme Thelma and Louise fez 30 anos e continua a ser um dos meus filmes preferidos. Vi-o demasiado cedo, mas fez-me bem. Sempre vi e li antes do tempo, muitas vezes às escondidas. Desde janeiro já adicionei 57 livros à lista dos que gostava de ler, aproximadamente o dobro da minha capacidade actual de leitura. Tento ler 50 páginas por noite, quase como um remédio, para não me esquecer das palavras, para não me esquecer do ritmo. Às vezes apetece-me deitar tudo fora, roupa, livros, pratos, coisas, destruir tudo e começar do nada com um prato, uma colher e uma muda de roupa. Felizmente à velocidade que essas ideias me atacam, também se vão embora, ficando a certeza que nada mudaria com toda essa mudança. Questiono-me tanto e ponho em causa tanta coisa que às vezes nem sei quem sou. Só sei que sou plural e incongruente. Passei metade da vida a ouvir raspanetes que não eram para mim, e sinceramente estou farta. Mil vezes ouvi os professores ralharem para toda a turma como se todos tivéssemos igual culpa no cartório (não que eu nunca fizesse merda, mas sabia fazê-las pela calada e nunca era apanhada). Aborrece-me receber emails reply all com repreensões que não são para mim. Perdi a minha saúde à conta de tentar ser perfeita e continuo a ouvir reprimendas sobre coisas de que não tenho a culpa. Não serviu de nada tentar ser perfeita. Escolho que livros ler com base nas prateleiras que ainda estão vazias, brevemente terei de ler alguns europeus que é onde ainda tenho espaço. Depois o ebook reader tratará de conter tudo o que eu quiser ler. Não aguento mais trocadilhos nos nomes das coisas, esgotei o plafond quando trabalhava em publicidade. Gosto de ver no instagram a Dona Dolores a merendar no interior de um avião privado, é daquelas coisas que anima logo o meu dia.

Tensão

“Geramos tensões, hoje mais do que nunca, que agoniam, e depois, se formos suficientemente bons no que fazemos, e talentosos e atentos, deixamos que o público vomite.
Cada tensão busca o legítimo desfecho, seguindo-se o alívio e a descontração.
Daí resulta que não devemos nunca gerar tensão, seja do ponto de vista estético ou do prático, que não possa depois ser libertada. Não havendo esse momento, o trabalho artístico ficará incompleto, a meio do caminho. E na vida real, como é sabido, não libertar a tensão pode levar à loucura.”

Ray Bradbury, O Zen e a Arte da Escrita

O verdadeiro artista

Sempre que ouço alguém dizer “tive liberdade total para criar o que me apeteceu” fico um pouco desiludida. Quando os artistas produzem de si para si próprios, sem intenção de comunicar com o outro, o resultado é normalmente masturbatório. Acredito que seja muito divertido fazer coisas ao calhas, sem inputs externos, sem preocupação de transmitir alguma coisa a quem estará do outro lado, sem traduzir uma verdade, um pensamento, uma emoção. Para mim, um verdadeiro artista não é quem sente liberdade total para criar, mas quem precisa muito de transmitir alguma coisa aos outros. Fazer por fazer, de si para si próprio, não é arte, é um passatempo. Lembrei-me disto a propósito daquele programa de televisão do Bruno Nogueira, que deve ter sido extremamente divertido de produzir, mas que não me comunicou absolutamente nada. Um exercício escolar, de treino e repetição, como alguns trabalhos que fazíamos na faculdade para cumprir calendário, demonstrarmos “criatividade” e termos direito a uma nota. Quando já estamos bêbados e experimentamos pôr piri-piri no pudim estamos a ser sem dúvida muito criativos, mas apenas isso e nada mais. Mas ainda bem que há pessoas que não pensam como eu.

Sobre revisão de textos mas não só

É muito mais fácil apontar os erros dos outros do que os nossos. As caixas de comentários estão cheias disso. É muito difícil olharmos para o espelho e vermos o que está lá realmente em vez do que queremos que lá esteja. Raramente leio o que escrevo. Se percorro um texto que escrevi, tudo me parece bem. Os olhos sabem o que quis dizer com os dedos, não encontram erros porque não lêem o que está escrito mas sim o que eu quis escrever. Quando pagino um texto de outra pessoa, as gralhas saltam como pipocas. Como não sei o que a outra pessoa queria dizer antes de o ler, encontro tudo aquilo que não devia estar lá.

diário #20210522

Fui sozinha ao teatro. Quando regressava a casa pus me a pensar há quanto tempo não conduzia à noite. A dieta rigorosa deixa-me menos cansada mas mais impaciente, não tenho a possibilidade de me apaziguar com chocolate. Tenho lido pouco e ando desconcentrada, não sei se por causa da alimentação ou do mundo em geral. Detesto que me perguntem “Tudo bem?” como forma de cumprimento, especialmente se não me conhecerem de lado nenhum. O que é suposto eu responder? Vivem no planeta Terra, como eu, o que é que acham? Detesto que me telefonem e me bombardeiem com perguntas como se eu tivesse a obrigação de as responder. Tudo bem? Que raio de pergunta é essa? Não têm nada a ver com isso. Em 2021 ainda se fabricam e lançam bombas, algo inacreditável e que desde miúda achei que iria acabar com o fim do século XX. Em 2021 ainda se fabricam e lançam bombas e eu preocupada porque me esqueço de tomar os medicamentos. As minhas preocupações são ridículas. Tento não magoar ninguém, é o mínimo que posso fazer, já que não consigo ajudar, não estorvo. Há 20 anos que o ordenado base de um designer é o mesmo. Como tudo foi ficando mais caro, fui deixando de gastar dinheiro em certas coisas. Felizmente não tenho um chefe inseguro, que é das piores coisas que há para nos foderem o juízo. Ando a ler pouco e sem entusiasmo. Li o The Nickel Boys do Colson Whitehead, bom e duro, com um twist lixado, daqueles que nos põem a ler a mesma página quatro vezes para termos a certeza que estamos a ver bem, como me aconteceu quando li o Expiação do Ian McEwan. Li o Zen e a Arte da Escrita, do Ray Bradbury, o primeiro livro que li sobre o processo de escrita que transborda entusiasmo e uma alegria quase infantil, refrescante para quem já está seco de ler sobre escritores torturados. Li o Just Kids da Patty Smith, o retrato de uma época e de uma Nova Iorque em mudança, escrito de forma terna e madura. Comecei o Uma ida ao motel, do Bruno Vieira Amaral, mas são contos e já não tenho cabeça para contos, são como fósforos que se acendem e apagam e na minha cabeça só restam cinzas. Li os Contos Esquivos da Ivone Mendes da Silva, bons, mas nada que se compare aos diários. Ando com dificuldade em lembrar-me das palavras e demoro demasiado tempo a escrever, tudo me sai com esforço. Há pessoas que falam como livros de auto-ajuda. Não gosto da designação “livros de auto-ajuda” porque para mim todos os livros são de auto-ajuda, mas enfim, vocês sabem do que estou a falar, é uma convenção estilística como outra qualquer. As pessoas que falam como livros de auto-ajuda são geralmente pouco altruístas, querem enganar-se através dos outros, convencendo os outros primeiro, como validação antes de se convencerem a si próprias. É muito mais fácil sentirmo-nos bem alavancando-nos nos outros, quer seja convencendo-os que somos o máximo ou rebaixando-os para que consigamos subir. Tenho genuína pena daquelas pessoas que envelhecem sem aprenderem nada, cheias de azedume, sempre a cuspirem farpas em direcção a tudo o que não compreendem. Que pegando numa balança e colocando de um lado aquilo que louvaram e do outro o que rebaixaram, o desequilíbrio é inequívoco. Observo a evolução dos rancores das pessoas à minha volta e tenho medo de ficar assim. Sempre que alguém tem uma atitude profundamente racista ou sexista publicamente, há sempre alguém que vem por cima e consegue ser ainda pior. Apanhei-me a ressacar The Leftovers, como um vício que sabemos que nos vai fazer muito mal mas pelo qual não conseguimos deixar de nos sentir profundamente atraídos. Duas senhoras finas com os seus brincos de pérolas falam da vida dos outros publicamente, ai q’horror as pessoas já não sabem ler nem escrever, hoje em dia qualquer um diz o que lhe apetece, é só selvagens, já viu, as empregadas agora já têm todas smartphones, a minha no outro dia até me pediu a password do wi-fi, não sabem gastar, por isso é que são pobres, é por isso que no Natal compro-lhe sempre uma lembrança, nunca lhes dou dinheiro a mais, não sabem gastá-lo, veja lá que uma vez uma disse-me que tinha gasto o dinheiro das horas extra numa corrente de ouro. É também por isto que me custa cada vez mais sair de casa e ter de interagir com pessoas.

Eu sei que é chato e comprido mas têm de ser fortes

(os professores de economia que me perdoem, por não saber a designação correcta para todos estes fenómenos)

Num mercado aberto e concorrencial, há diferentes marcas e diferentes produtos em cada categoria. Há marcas que investem muito em publicidade e marketing, há outras que não. Há marcas que valorizam a qualidade do produto ou do serviço que prestam enquanto outras se posicionam pelos preços baixos ou pela facilidade de utilização. Produtos concorrentes que apresentam características e níveis de qualidade muito semelhantes tendem a diferenciar-se por coisas mínimas, mas que são suficientes para o consumidor fazer a sua escolha, em mercados saturados de bons produtos e com preços equilibrados. Quantas vezes não tomámos uma decisão no corredor do supermercado, por causa de benefícios mínimos, ou por rejeitarmos inconvenientes microscópicos? O nosso tempo é limitado, o nosso dinheiro é limitado e por isso as nossas decisões de compra têm de ser tomadas com base numa análise prática e por vezes injusta, porque apesar de nunca termos toda a informação necessária para sermos juízes imparciais temos forçosamente de tomar uma decisão, ou ninguém lava os dentes lá em casa esta semana.

Quando as marcas estão há muito tempo no mercado, algumas acabam por se tornar preferidas dos consumidores, acabando por se distinguir pela qualidade que oferecem, pelo baixo preço, por estarem na moda, por uma série de factores que fazem com que elas se transformem em líderes de mercado. E sendo líderes de mercado têm mais dinheiro para investir em publicidade, em actualizar as suas linhas de produção, em investigação e desenvolvimento de novos produtos. Mas por vezes os consumidores mudam de expectativas e deixam de procurar os produtos de uma marca, em detrimento de outra que oferece algo novo. E não precisa de ser algo muito relevante às vezes o factor novidade é suficiente. Todos conhecemos grandes marcas e produtos de muito boa qualidade que numa altura estão no topo das prioridades dos consumidores para logo a seguir deixarem de estar. É o mercado a funcionar. Outras vezes é apenas uma questão de timing, algumas marcas não têm sucesso por se apresentarem no mercado demasiado cedo, antes de haver um número suficiente de consumidores interessados naquele produto, que dois ou três anos mais tarde seria sem dúvida um sucesso de mercado. Lembro-me quando abriu a primeira pizzaria que entregava ao domicílio aqui onde moro. Durou pouco tempo, mas uns anos mais tarde havia quatro diferentes a operar no mesmo território, e assim foi durante anos. Até aparecer o UberEats e a oferta de comida ao domicílio se ter alargado tanto que duas delas deixaram de existir.

Há muito boas marcas que acabam por deixar de existir, muitos bons produtos que são descontinuados porque não existem consumidores suficientes para eles. No entanto também há algumas marcas que conseguem manter-se fora dos grandes circuitos comerciais, apostando em nichos ou usando exclusivamente a internet para venderem os seus produtos. É uma questão de adaptação da dimensão do negócio ao mercado de que dependem. Não existem marcas sem consumidores, não existem produtos se ninguém estiver interessado neles. Todos nós já deixámos de comprar algo de uma marca e passámos para outra que nos pareceu mais interessante por uma inúmera variedade de razões. Dentro destas razões podem estar questões práticas de disponibilidade, preço ou qualidade, questões pessoais de preferência e adequação, ou questões imateriais como sentimentos de pertença ou valores transmitidos. Quantas vezes não deixámos de ir a um restaurante porque alguém que conhecemos teve uma intoxicação alimentar, porque fomos mal-servidos ou porque encontrámos uma mosca na sopa? Quantas vezes já tínhamos ido a esse restaurante e saímos de lá satisfeitos? Quantas vezes deixámos de ir a um restaurante simplesmente porque nos esquecemos dele ou porque abriram outros novos, melhores ou mais convenientes mais perto de nossa casa? Quantas vezes deixámos de ir a um restaurante que achávamos o máximo porque o nosso gosto evoluiu?

Muitas pessoas estão conscientes de que é assim que o mercado funciona e muitas pessoas não estão. Muitas pessoas concordam com o modo de funcionamento dos mercados e outras não. Muitas pessoas fazem as suas escolhas de compra de forma consciente e muitas não. Não há por onde fugir, podemos não concordar com nada disto, podemos manifestar o nosso desagrado, mas é assim que a maior parte dos mercados funciona, para o bem e para o mal. O consumidor escolhe o que quer comprar e o que não é escolhido acaba por diminuir ou até mesmo desaparecer.

Os consumidores evoluem e os mercados evoluem. Novos produtos são lançados, cada vez mais aperfeiçoados ao gosto dos consumidores, que vai mudando e adaptando-se a novas necessidades, ambições e preferências. Coisas perfeitamente boas e sólidas que eram valorizadas antigamente, deixam de o ser, em detrimento de novas características. Lembram-se da Nokia, líder de mercado, cujos telefones duravam uma semana sem ter de carregar a bateria? Lembram-se do Blockbuster, da Kodak, do MySpace, da Polaroid, dos Walkmans, do Concorde, das lojas de discos, dos jornais, das revistas e dos brinquedos da vossa juventude? Se pesquisarem online há listas enormes de empresas que encolheram brutalmente ou mesmo desapareceram porque não conseguiram adaptar-se aos novos mercados e à concorrência. Nalguns casos foi um problema de gestão, noutros casos era inevitável. É claro que há nostálgicos, coleccionadores e saudosistas destas coisas, mas a maior parte das pessoas acaba por avançar com a corrente principal do consumismo adaptada ao seu tempo.

Num mundo em que a oferta é enorme, a concorrência brutal e em que todos os dias temos de tomar decisões, por vezes são as pequenas coisas que fazem a diferença. Se a maior parte das pessoas deixar de comprar certos produtos eles deixam de estar disponíveis ou passam a existir apenas em nichos de mercado ou apenas online. Para o consumidor comum, coisas que eram valorizadas antes deixam de o ser (baterias que duram dias), coisas que eram impensáveis passam a ser banais (robots que aspiram sozinhos!), coisas banais passam a inaceitáveis (sair de casa para poder ver um filme). Os consumidores evoluem e, inevitavelmente, os mercados evoluem com eles.

Não é a cancel culture, é o mercado a funcionar, estúpidos.

diário #20210430

Estão 23ºC dentro de casa. Estou de t-shirt e camisola de lã e a tremer de frio. Aproveito que é hora do almoço e lavo as mãos na cozinha com água quente. Vou à varanda ver das plantas. Não sei se o aloé vai resistir ao transplante, as folhas dos morangos já estão gigantescas, o tomilho apanhou uma moléstia branca que espero que não passe para as outras plantas. Rego as hortênsias, os cravos túnicos e o manjericão. Nunca tive uma varanda tão bonita, mas bem que me deu cabo das costas. Deixo para o fim de semana a arrumação das ferramentas, vasos e substratos que sobraram. O workshop de escrita acabou mas ainda tenho de produzir o texto final. Aquele grupo de mulheres conseguiu algo poderoso, todas as semanas 3 horas em directo onde nos despimos naquele lugar seguro. Nunca fiz parte de uma turma onde me sentisse tão bem integrada, nem na escola nem em lado nenhum. É impressionante o nível de escrita de todas aquelas anónimas especialmente se tivermos em conta as merdas que são publicadas. Não tenho fome. Comi uns frutos secos há bocado e tenho preguiça de fazer comida. Esta semana a médica aconselhou-me a procurar um nutricionista, a tentar fazer dietas de eliminação para tentar perceber se aquilo que eu como influencia os meus achaques. Eu sei que provavelmente ela tem razão mas estou tão farta de médicos e de teorias e de andar de um lado para o outro sem saber em quem confiar, não porque tema a incompetência, mas porque há muito pouco conhecimento verificado e efectivo sobre o assunto. Decido vir escrever em vez de almoçar, não tenho sopa feita e sobre tudo o resto paira a possibilidade de que sejam alergéneos e não estou com paciência para lidar com o assunto. O meu avô diria que o meu mal é fastio. Venho para o computador escrever, lugar de onde saí há 10 minutos. É claro que estar 10 horas sentada ao computador e não andar mais do que da sala para a cozinha terá também alguma culpa no cartório. Tudo o que faço é em detrimento da saúde e estou farta disso pender sobre mim o tempo todo. Tenho dormido mal, acordei com o despertador, sem perceber o que era aquele barulho que me estava a acordar. Fico à espera de me lembrar de palavras que quero dizer, sem em que gaveta estão, im, imp, impl, impr, impa, insisto até que ela aflore, implacável, é isso. O quotidiano é implacável. Vivo o ano todo para os 15 dias em Punta Cana pagos a prestações. Só que raramente saio do país, nunca fui a Punta Cana, nem nunca comprei férias a prestações. Mas o sentimento é o mesmo, viver para os 15 dias em que não tenha de ser eu.

Epifania ressessa

Aprendi aos quarenta anos a mentir sem vergonha ou remorso, não para me beneficiar, apenas para não me prejudicar, para saltar explicações demasiado complexas que me fariam perder tempo e gastar cuspo com questões sem importância. Aos quarenta anos, acima de tudo, há que ser prática.

O Fulgor Instável das Magnólias

“Os diaristas sabem bem que os instantes têm mil patas inquietas sempre em risco de se perderem na distância. Por isso os escrevem e acreditam que assim os guardam”

A escrita de Ivone Mendes da Silva é intensamente sensual mas não na acepção corriqueira do termo, porque nada aqui é lúbrico ou lascivo. Consegue despertar no leitor um voyeurismo semelhante ao do narrador quando nos descreve aquilo com que se cruza diariamente. Somos um voyeur a observar outro voyeur. Comprei o livro por impulso sem saber bem o que esperar e li-o todo de rajada. É bem provável que eu já tivesse lido textos da autora quando esta escrevia em blogs, mas sinceramente não me lembro. Este é um livro que poderia ser racionalmente descrito como “uma espécie de diário de uma misantropa professora de 60 anos que vai ao café e dá grandes passeios pelo campo, com impressões sobre as condições meteorológicas e as pessoas com quem se cruza”, uma fórmula que poderá não agradar ao leitor moderno que espera da literatura grandes arcos narrativos, muitas vírgulas, metáforas e alegorias, resoluções, conflitos e finais felizes. Este livro é a antítese de todos os cursos de escrita criativa do mundo, e é tão bom. Percebo que nem todos gostem, mas é tão profundamente bem escrito, que dá vontade de bater palminhas de pé.

“Vêm às vezes pessoas que me dizem ah mas está com bom aspecto nunca parece cansada. Dou-me ao trabalho de explicar: o facto é que não me sinto cansada sinto-me muito farta. E isso é infinitamente pior.”

É uma escrita viciante, onde quase nada acontece, mas tudo transborda de significado, de intencionalidade e de intensidade. Eu diria até que é uma escrita profundamente sexual pela confiança que extravasa do texto, apesar da contenção do narrador. Sei que se cruzasse o seu caminho seria mais uma das desleixadas, mal vestidas que dão erros gramaticais e poluem o ar dos cafés. Não me importo nada, até acho graça. As palavras são inteiras, absolutas e íntegras, não se desviam um milímetro do seu propósito, e apesar de descreverem a banalidade dos dias nunca são levianas, sabem sempre o peso que carregam. Sinto-me profundamente humilde perante este livro e apesar do esforço sou incapaz de descrever o poder e a profundidade do que li. A palavra mais próxima que encontro é incandescência, uma quietude que tem o potencial de queimar quem se aproxime demasiado.

“Hoje uma pessoa que trabalha comigo e de quem não desgosto disse: tu estás em paz. E eu confirmei. Ela depois sorrindo perguntou: e isso deu muito trabalho? Foram anos: respondi.”

Quando for grande gostava de ser assim, mas sei que jamais terei estofo para isso. Agora tenho de ir ler todo o resto.

diário #20210423

Ando a criar cuidadosamente meia dúzia de pêlos no queixo, como quem cria animais de quinta. Passo os dias a fazer-lhes festas, corto-os de manhã com a gilette, deixo-os engordar e fortalecerem-se até ao momento em que, com um clarão de electricidade, os matarei para sempre. Ouvindo um podcast com a Deborah Levy, descubro que também eu não sei meditar a não ser dentro de água. Só fazer piscinas me alivia como nada mais. Faço amiúde contas às horas do dia para tentar encaixar sessões de natação na minha semana mas nunca consigo. O instagram quer me vender collants para pessoas gordas e fico profundamente chocada. Como é que o algoritmo, que tudo sabe e tudo vê ainda não percebeu que entre as coisas que mais odeio no mundo estão os collants? Esta semana quase chorei por causa de uma foto de um frango assado. As batatas fritas numa travessa de inox, a toalha de papel texturado aos quadradinhos, adivinhar o escaldão das primeira batata na língua, ainda sem sal, e de seguida as outras, já temperadas com o saleiro em vidro com baguinhos de arroz lá dentro. Sentir a textura da toalha nos braços, o barulho da minha mão a passar sobre ela, o tilintar da tenaz na travessa de inox, os talheres ordinários, facilmente dobráveis com um ornato na diagonal. O pichel de vinho da casa. A cesta de plástico beje com um relevo em forma de entrançado e dois papo-secos lá dentro. A grossura baça da chávena riscada nos lábios. A banalidade disto tudo é comovente. Decidi-me a comprar um ebook reader com o dinheiro da devolução do IRS que ainda não sei quando virá. Custa-me deixar de acrescentar lombadas à estante, tenho o fetiche do papel, como uma vez me disse um professor. Desconfio que o meu corpo passou a confundir frio com dor, já não os consigo distinguir. Desejo a alguém que parte, que encontre tudo aquilo que procura, mas fica-me a remoer na cabeça se o que acabei de fazer, em vez de transmitir esperança, não acaba por ser mais um praga que lhe rogo. Como já diziam os Rolling Stones, “…you get what you need”.

Lauren Hough

Lauren Hough: Yeah, every day. It is absolutely bizarre. I’m very proud that all we were in was a dumb little cult. And not storming a Capitol. It has been surreal to watch. How reasonably intelligent people buy into whatever the fuck this is. The recipe was there. It always has been in America. The desperation. Our lives revolve around work, and there’s no way to get ahead. And when someone offers you a golden ticket, it’s really easy to buy into that. We don’t have the sense of community we should. People just kind of live in the suburbs on their own. So someone comes and offers them a purpose and unconditional love and someone to blame for all their problems. It’s really easy to buy in. I’m stumped as anyone else.”

in https://electricliterature.com/lauren-hough-book-leaving-isnt-the-hardest-thing-essays/

“Blue-collar customers were always my favorite. They don’t treat you like a servant. They don’t tell you, “We like the help to use the side door.” They don’t assume you’re an idiot just because you wear a name tag to work and your hands are calloused. The books on their shelves aren’t bound in leather. But the spines are cracked. Most of them, when you turn on the TV, it’s not set to Fox. They’re the only customers who tip.”

https://www.huffpost.com/entry/cable-tech-dick-cheney-sex-dungeon_n_5c0ea571e4b06484c9fd4c21

diário #20210412

Todos os dias, à meia noite e cinco, passa um avião sobre o prédio onde moro. Ainda há aviões com pessoas lá dentro. As aulas de escrita são uma espécie de sessões de psicanálise de grupo. Não quero escrever sobre a morte, não sei sobre o que quero escrever. Preciso de escolher um tema para um texto, mas detesto decidir sobre o que escrever, um defeito profissional, prefiro que me mandem do que ir sozinha. O tempo está húmido e doem-me mais as articulações. Quando o médico me pergunta numa escala de 0 a 10 quanto me dói, nunca sabia o que responder. Entretanto adaptei a escala de Richter à dor, até 3 existe mas passa despercebida, 4 e 5 sinto-a mas consigo continuar na minha vida, 6 e 7 tarefas básicas ficam bastante dificultadas, 8 e 9 não sei o que são nem quero saber. A minha vida vai encolhendo, as pessoas com quem falo são cada vez menos, os sítios onde vou, como se estivesse a implodir em câmara lenta, absorvida em mim, por mim, para dentro de mim. Não vou à rua, deixei de falar ao telefone, quero estar na cama a ler. Será isto preguiça, doença mental, ou apenas o princípio de Darwin, a minha adaptação progressiva ao mundo que me rodeia, ou uma forma de não comprometer o equilíbrio homeoestático. A sobrevivência do mais quê? O meu dia são tarefas e obrigações, eu a tentar despachar o sofrimento todo para adiantar serviço, para eventualmente quando terminar, limpar as mãos às calças e ir viver de uma vez, no dia de são nunca, sete palmos abaixo. Vou remoendo ideias para escrever mas nada me agrada, gosto de escrever sem fim à vista, para me ajudar a pensar. Escrevo subcontratando as mãos para que pensem por mim, porque o cérebro já não funciona bem, numa espécie de outsourcing do pensamento. As mãos são poderosas como o cérebro, as mãos têm uma sensibilidade incrível, prefiro artesãos a artistas, o domínio do corpo, a disciplina dos métodos, o respeito pelo material, o concreto. Afasto-me cada vez mais da abstração e da criatividade pura. Procuro o tema para escrever, palavras ao serviço de uma causa, joeiro a espuma dos dias, a pobreza de quem trabalha, #A_Pandemia, coragem e cobardia, tento desemaranhar as memórias, mas algumas já não as sei distinguir de histórias inventadas, de sonhos que remoí durante dias até se transformarem em falsas recordações. Odeio pessoas que fazem contabilidade dos livros que lêem. Este ano já li vinte e um.