Revirei os olhos e ri-me

“Um escritor de algum renome, mas não na minha hierarquia pessoal, já emborcara demasiados cocktails com gin, o que despertara o seu desejo de encontrar na sala uma escritora para rebaixar. Achou que eu servia e foi diretamente ao assunto, sem rodeios.”

Direito de Propriedade, Deborah Levy

De um autor famoso

“Sim, tantos anos depois, havia alguma coisa que ainda queria descobrir acerca de criar personagens, sobretudo personagens femininas. Afinal, o objetivo da vida é pensar e sentir e viver e amar mais livremente, por isso é um projeto interessante imaginar uma personagem feminina que não tenha vida. A história neste livro era sobre uma mulher que ofereceu a sua vida a um homem. Não se deve tentar isso em casa, mas é normalmente aí que acontece.”

Direito de Propriedade, Deborah Levy

Feira 2021

Por via da máquina de lavar roupa se ter avariado no mês passado, não me $obrou t€mpo para ir à feira do livro. Passei lá hoje apenas de fugida para uma bola com creme e outras friandises.

(Enquanto folheava o 3º da Deborah Levy, reparei que ela fala do livro The Hearing Trumpet, da Leonora Carrington, que ando a ler com muito gosto. O que eu gosto destas coincidências. A VS. ainda faz lombadas à francesa.)

diário #20210824

Arrasto há demasiado tempo a leitura de Superinteligência, de Nick Bostrom. A verdade é que me dá sono e nunca consigo ler mais do que meia dúzia de páginas. Talvez seja demasiada abstracção para a minha fraca cabeça, talvez esteja a forçar um assunto que jamais conseguirei entender. Já saltei umas partes mais chatas mas continuo a uma velocidade demasiado lenta e a apetecer-me ir ler outras coisas, com mais “bonecos”. Não consigo parar de pensar se uma inteligência artificial poderia ter problemas mentais; se enfrentaria dilemas existenciais, loops intermináveis envolvendo paradoxos que a fizessem crashar. Ainda falta muito para acabar o livro e não sei se aguentarei até ao fim. Deixar livros a meio incomoda-me mais pelo dinheiro que está ali empatado. A máquina da roupa avariou de vez e por isso comecei a fazer contas aos tostões para ver se ainda conseguirei ir à feira do livro cheirar as farturas. Fui ao supermercado comprar pão, papel higiénico, bróculos e fruta. Estou de férias, tenho tempo para escrever mas não consigo.

diário #20210817

As sandes de chouriço vão desaparecer dos bares das escolas. Quando andava no 5º ano comprávamos pães de mafra com chouriço, bebíamos muita água e fazíamos campeonatos de arrotos em frente ao bar. No 7º ano os meus almoços na escola eram dois croissants com queijo e uma pepsi. Nunca entrei sequer no refeitório. Na maior parte dos dias ia almoçar a casa (enjoei de tantos ovos mexidos que fiz) e nos outros fazia o que me apetecia. Apesar de em casa haver sempre saladas, sopas e legumes, os meus pais nunca se preocuparam com o que eu comia fora de casa. Frequentemente o meu lanche era cem escudos de sortido húngaro, vendido a peso em cartuchos de papel. É bom que não vendam comida de plástico nas escolas, mas é mau que os miúdos sejam tão pastoreados. Sou a favor das vacinas mas incomoda-me profundamente a história dos certificados para aceder a cenas. Nunca consigo estar cem por cento do lado correcto da história, seja ele qual for. Como um gelado deitada no sofá enquanto vejo pessoas a tentarem fugir do Afeganistão. Desligo a televisão por pudor. Ou para não sentir tanta repugnância de mim própria e dos meus problemas aburguesados. Trabalhei muito hoje (se é que posso chamar trabalho a isto de mexer os dedos em frente ao computador para receber a tença) mas estou sozinha em casa, é uma espécie diferente de férias. Não tenho de fazer jantar, nada de sopas ou saladas, nem tenho de fazer de polícia, não tenho de ralhar nem de fazer de conta que dou importância a ninharias, não tenho de dar bons exemplos, de fazer teatrinhos, ou de pôr o dedo em riste. Não tenho de fazer de conta que sou boa mãe. Nem tenho de fazer de conta que não me mete nojo a excrescência que sou.

Palavras esdrúxulas

Sinédoque e Metonímia. Somos os nossos erros. A parte sobrepõe-se ao todo. Já não há cebolas, somos todos basic bitches, ou bons ou maus. Identificáveis, etiquetáveis, distinguíveis, fáceis de lidar, como parafusos numa fábrica de automóveis.

Guarda-redes

O médico disse-me que os guarda-redes são mais afectados por depressões do que os outros jogadores. É por estarem parados muito tempo. Porque quase nunca marcam golos, só tentam evitá-los. Não conseguem levar uma equipa à vitória, só evitam a derrota. A inversão do ónus. Nunca fazem mais do que a sua obrigação. Yep.

diário #20210816

Enquanto trabalho, ouço a Maria João Pires e por vezes faço combinações de 4 dedos sobre a teclado do computador, atalhos do Photoshop, e quase sinto os meus dedos mexerem-se ao mesmo tempo que os dela. Meu querido mês de Agosto, vivemos todo o ano exilados na cidade, emigrados da praia e da aldeia. Estou a ler um livro sobre inteligência artificial e o medo que temos em relação a ela é o mesmo que temos em relação às crianças: que aprenda com aquilo que fazemos e não com aquilo que dizemos que deve ser feito. As previsões sobre o desenvolvimento deste tipo de tecnologia parecem-me irrealistas, não têm em conta o contexto de um mundo em ruptura. Se contribuirá para o nosso acelerado declínio ou para a nossa salvação, ainda não sabemos. Mimetizar a inteligência humana pode não dar grande resultado. Há quem tome a felicidade alheia por provocação, não conseguindo testemunhá-la sem ir lá com o dedo escarafunchar, sem sacudir as migalhas da sua sapiência para cima dela, sem escalpelizar o prazer alheio com a intenção de o deformar ao seu interesse. Eu como cada vez mais pão com manteiga, suspiro muito e cada vez falo menos. Deixem os miúdos descobrirem como se faz. Gostava de conseguir escrever um poema com a violência, a arrogância, e o desprendimento com que um toureiro espeta um par de bandarilhas num touro, mas também sem o medo de levar uma cornada e ficar com os colhões à mostra.

Entretanto li:
Torto Arado, Itamar Vieira Júnior
O infinito num junco, Irene Vallejo
A sabedoria secreta da Natureza, Peter Wohlleben
Shady Characters, Keith Houston
Kitsch, Fritz Karpfen
Ajudar a cair, Djaimilia Pereira de Almeida

O Silêncio das Mulheres, Pat Barker

Gostava de ter gostado mais deste livro, até porque não foi barato. Lê-se bem como um livro de aventuras, mas não me parece que cumpra o que os blurbs e críticas prometem. Não é verdadeiramente uma visão feminina da guerra de Tróia, é mais uma versão da história centrada em Aquiles, bem contada, desta vez por uma mulher, num estilo que me pareceu demasiado fast food. Literatura de aeroporto em papel mais caro, acho que é isso.

A life’s work, Rachel Cusk

“My response to those early cries, in other words, is formative. I should do nothing that I don’t intend to continue doing, should make no false moves, lest I find myself co-habiting in the months and years to come with the terrible embodiment of my weaknesses, a creature formed from the patchwork of my faults held together by the glue of her own apparently limitless, denatured, monstrous will.”

“I have not, in fact, become more loving, more generous, more capacious. I have merely become more afraid of love’s limits, and more certain that they exist.”

Mais um livro sobre maternidade fofinha, ah ah ah, não, estou a brincar, não aconselho a grávidas ou puérperas, é preciso tempo e espaço para encaixar isto tudo.

https://www.theguardian.com/books/2008/mar/21/biography.women

Rachel Cusk 4ever \m/

diário #20210718

Estão 30 graus dentro de casa, deixo-me suar por lassidão. Ligo o forno para fazer o almoço e de seguida um bolo; nem discernimento tenho para evitar aumentar a temperatura usando outros métodos de cocção. Entretanto li a Balada para Sophie, de Filipe Melo e Juan Cavia, Viver da Morte, de Rita Canas Mendes, e A Força da Forma, de Mário Moura, mas não aborreço ninguém com as minhas opiniões. Acabei a Olive Kitteridge e já comecei o Léxico Familiar, de Natalia Ginzburg. Faz-me lembra O Leopardo, de que tanto gosto. Com os planos para o fim de semana cancelados, vou empurrando com o umbigo o texto que devia terminar. A verdade é que não sei como fazê-lo, falta ali qualquer coisa no meio que ainda não sei o que é. Folheio as páginas de lifestyle que é o Instagram e tento imaginar-me pessoa de novo, pessoa “irl” como se diz agora, fora da minha cabeça, fora de mim, fora de casa, na praia, em restaurantes, como antigamente. Vou ocultando anúncios que me querem oferecer injecções de colagénio, harmonizações faciais (como me repugna esta expressão), prolongamentos de pestanas, unhas de gel, tratamentos para a celulite, todo um ramo de serviços que não tenciono contratar. O algoritmo decidiu definitivamente que eu era uma dona de casa de meia idade e portanto é isto que eu quero/é isto que eu preciso. Apetece-me denunciar os anúncios como imprórios mas não o faço. Querem vender-me carros, APENAS por 300€/mês, cintas modeladoras, consultas de astrologia, “amarrações” e banha da cobra. Apetece-me denunciar o mundo como impróprio, mas não há botão. O mundo que arde, adoeçe ou se afoga, num circuito contínuo de desgraça ignorado pelo lifestyle. As formigas regressaram por um dia e quis fazer como o Dalí e arranjar um animal de estimação. Foram-se embora entretanto nem percebi porquê, talvez fartas de migalhas sem glúten e sem lactose que a nutricionista me aconselhou com veemência. Ainda tenho as orelhas a arder dos brincos de pechisbeque que usei ontem, estão em cima da mesa de cabeceira ao lado dos potes de Vicks e Carmex cereja, e do frasquinho de óleo de alfazema. Sou uma velha das mezinhas, das mezinhas nas mesinhas. Há algo que admiro nos influencers digitais, a capacidade de transformarem o ser em forma de vida, em capitalizarem o eu, na forma como transformam o existir em fonte de rendimento. Ao contrário de muita gente não acho que trabalhar seja mais digno, vender os movimentos do corpo e do cérebro, vender as horas do dia e a saúde, por seiscentos euros mais cento e vinte em cartão. Irrita-me o paternalismo do estado com o subsídio de alimentação, como quem responde ao pedinte “dinheiro não dou, mas pago-lhe uma sopa.” Como se quem ganha seiscentos euros pudesse gastá-los em algo que não seja básico, como se cento e vinte euros em cartão dessem para alimentar uma família. Mais do que isso, já é um luxo. Qualquer dia pagam os seiscentos em cartão e dão-nos os cento e vinte em dinheiro, com uma palmadinha na cabeça e ainda dizem “não gastem tudo em putas e vinho verde”. Se bem que, se há coisa que felizmente podemos comprar com o subsídio de alimentação é vinho verde.

Olive Kitteridge

“A tia Katherine tinha feito muita terapia e Rebecca ficava nervosa na companhia dela.”

A mim aconteceu-me o contrário, a minha tia é que tinha medo de mim.

Os Cus de Judas

Dou uma segunda hipótese ao Lobo Antunes, há uns 15 anos que não pegava num e fico logo contentinha por ver a palavra cagalhão na primeira página; conforto-me com pouco, sei que estou em casa. O kitsch metafórico deixa-me com aquele cansaço bom que as pessoas que gostam de fazer exercício vulgarmente relatam. Também eu “descobri, uma tarde, sentado numa esplanada de Algés, na borbulhosa presença de uma garrafa de água das Pedras, que estava morto, entende, morto como os suicidas do viaduto que de quando em quando cruzamos na rua, pálidos, dignos, de jornal dobrado no sovaco, os quais desconhecem que faleceram e cujos hálitos cheiram a almôndegas com puré de batata e a trinta anos de funcionário exemplar”, também eu “queria achar-me em Paris a fazer revoluções no café, ou a doutorar-me em Londres e a falar do meu país com a ironia horrivelmente provinciana do Eça, falar na choldra do meu país para amigos ingleses, franceses, suiços”, “uma terra em que a vivacidade faz as vezes do talento e onde a destreza ocupa o lugar da capacidade criadora, e creio com frequência que não passamos de facto de débeis mentais habilidosos consertando os fusíveis da alma à custa de expedientes de arame”.

“Sempre apoiei que se erguesse em qualquer praça adequada do país um monumento ao escarro, escarro-busto, escarro-marechal, escarro-poeta, escarro-homem de Estado, escarro-equestre, algo que contribua, no futuro, para a perfeita definição do perfeito português: gabava-se de fornicar e escarrava.”

Amen.