diário #20210219

A lentidão distrai-me. Não é bem a lentidão, porque não é a lentidão das imagens que me faz dispersar, é mais a lentidão do discurso. Para me conseguir concentrar em tutoriais e vídeos educativos do youtube tenho quase sempre de acelerar a velocidade para que as pessoas falem mais rápido, senão não consigo entender o que dizem, fica demasiado espaço entre as palavras para preencher com os meus pensamentos. É inútil ouvir audiolivros ou podcasts, não retenho nada do que foi dito. O mesmo acontece com os livros, quando há demasiado espaço entre as linhas, ou estas são demasiado pequenas não me consigo concentrar no que estou a ler. Se isto se deve à internet e ao consumo voraz de informação despicienda, não sei, mas desde pequena que prefiro manchas de texto mais compactas, que me permitem ler mais rápido. São 3:45, um dos meus vizinho abriu o estore do quarto acordando-me. Tento furiosamente voltar a dormir, mas ninguém consegue dormir furiosamente. Invejo as pessoas coerentes e o Cavaco, que nunca se enganam e raramente têm dúvidas (ou vice-versa, já não me lembro e não me apetece ir ao google procurar), que conseguem ligar todas as suas escolhas e decisões a um traço comum, a uma espinha dorsal sem escoliose, hérnias, ou lombalgias. Tenho em mim todas as contradições do mundo. E também tenho muitas piadas foleiras com citações distorcidas.

Por falar em séries

Vi o primeiro episódio de I Know This Much is True e não consegui ver o resto, pode ser muito bom mas é demasiado intenso e não aguento mais daquilo, quase nem dormi. Comecei a ver American Gods, só por causa do Ian McShane, era capaz de pagar para o ver a ler a lista telefónica.

Everything is a remix

Sim, já tudo foi inventado, não, ainda não foi inventado tudo. Criatividade é isso mesmo. Esta série de vídeos é muito interessante e a que se segue, sobre teorias da conspiração também.

Quem ganha não é quem chega lá primeiro, mas quem tem mais oportunidade/capacidade de difusão.

The Leftovers

Não consigo parar de pensar no Shuggie Bain, na violência, no alcoolismo, na pobreza, no instinto de sobrevivência, na ternura, tal como não consegui parar de pensar na série The Leftovers, nos meses seguintes a tê-la visto. Há livros, filmes e séries que mudam quem somos, mas também há posts e memes que nos deixam sem ar.

O que vemos quando lemos

Um livro sobre livros, sobre a paixão pelos livros, sobre ler e imaginar, sobre o que acontece na mente do leitor quando ele lê, interpreta e imagina. Imperdível para quem gosta muito de ler.

“Será que ler um romanca não significa produzir como que uma peça privada? A leitura é selecção de intérpretes, criação de cenários, maquilhagem, marcação cénica, encenação…”

diário #20210217

Apercebi-me lentamente que, tirando a família, as pessoas já só falam ao telefone quando não querem que existam provas escritas do que vai ser dito nessa conversa. Ninguém se quer responsabilizar, eu muito menos, comecei a responsabilizar-me por mim e pelos outros demasiado cedo, sempre fui a mais responsável em todo o lado, mas essa capacidade foi consumida, ardeu como combustível até se extinguir. Sempre que trazem miúdos faço questão de comer o coração dos frangos, faço o por respeito hipócrita e vergonha do desperdício, como os esquimós que dizem uma oração antes de matarem a presa. Não sair de casa está a tornar-me cada vez mais robótica e apática. Ao mesmo tempo que o presidente pensa em apertar a legislação sobre o ruído doméstico pedimos às crianças que façam educação física em casa aos saltos e que aprendam música treinando com uma flauta. Toleramos tudo. Primeiro podíamos ir à rua comprar a Caras, mas não um livro. Tolerámos isso. Agora já podemos comprar livros mas não em livrarias físicas, esses locais de consumo louco e desenfreado que estão sempre a abarrotar de gente e com filas gigantescas à porta (quem dera!). Toleramos tudo, até pessoas a respirarem para o pescoço do vizinho da frente na fila da churrasqueira take-away ou na carruagem de metro. Toleramos tudo. Se as livrarias mudarem o CAE nas finanças para poderem começar a vender chouriças, talvez pudessem voltar a vender um livrito ou dois lá pelo meio dos enchidos. Enfim, toleramos tudo, aceitamos a irracionalidade pelo bem comum, toleramos a desadequação devida à urgência, damos um desconto pela necessidade de improviso, mas bem vistas as coisas estamos nisto há quase 1 ano e começamos a ficar cansados de tanta tolerância. Não há uma matriz para o número de horas online para crianças do pré-escolar, toleramos a forma como a escola passa a irromper no espaço doméstico, aceitamos expor as nossas casas e a nossa privacidade aos olhares de estranhos. E aguentamos assim porque cremos que tudo isto é temporário, tal como eu aguentei quando frequentei uma escola temporária, em pré-fabricados com telhado em amianto e buracos no chão, que já era temporária 12 anos antes de eu lá ter andado. Esquecemo-nos quase todos os dias que (e se calhar só por isso mantemos a sanidade) a nossa vida também é temporária e que é só tolerar mais um bocadinho e pum, estaremos finalmente mortos e sossegados na privacidade do nosso caixão. No outro dia lembrei-me de voltar a usar brincos e quase já não fui a tempo, tive de forçar a entrada com um espigão de ouro barrado em pomada desinfectante e andar dois dias com as orelhas a arder e a latejar. Ando a ponderar comprar um ebook reader, poupa-se papel, tinta, transporte, mas gasta-se lítio e plástico e afins, pesa menos mas é demasiado acessível, torna-se demasiado fácil comprar livros por capricho, e alguém me dê serenidade para aceitar as coisas que não consigo mudar, a coragem para mudar as coisas que consigo, e a sabedoria para as distinguir, porque claramente não está fácil. Muitos livros são mais baratos em versão eletrónica, e posso mudar o tipo de letra e o tamanho que é coisa que me amofina bastante nalguns livros, para além de me atrasar a leitura. Apercebi-me demasiado tarde que ensinei demasiado cedo ao meu filho como argumentar. Traz-me algumas dores de cabeça e trar-lhe-á (que lindo!) alguns dissabores ao longo da vida. Agradeço profundamente que ele não seja igual a mim, que se tivesse estas aulas online estaria sempre quieta e calada no meu canto, deprimida e amedrontada com os gritos da professora, “podem falar!”, eu que sabia todas as respostas mas que me escondia a um canto para que não me incomodassem, que deixava copiar e passava as respostas aos colegas nos testes, que nunca me voluntariava para responder, que nunca punha a mão no ar para mostrar que sabia, a não ser quando o professor errava nalguma coisa e aí o erro crescia no quadro até se tornar intolerável e aí sim, eu interrompia, borrada de medo, mas interrompia, porque o erro me era insuportável. Ainda hoje os erros me são insuportáveis, sobretudo os meus, mas aprendi a tolerá-los como a tudo o resto, para conseguir viver. Sim, sempre tive boas notas, mas nem todos os professores gostavam de mim.

Estou cada vez mais confusa

Não consigo entender para onde vamos como sociedade. Parecemos tão avançados numas coisas e tão retrógrados noutras. Cada vez que, por acidente, vejo um pouco das notícias, fico de boca aberta sem entender metade do que se passa no país.

Shuggie Bain

O booker do ano passado, muito triste, muito duro, muito bom. Difícil de ler no original por causa do sotaque/vocabulário escocês, mas quando terminei já estava quase a rolar os R’s. Uma coisa estranha que me aconteceu: apesar de a mãe de Shuggie ser descrita várias vezes com cabelo preto e encaracolado nunca consegui deixar de a imaginar loura.

Desvio

Livro para adolescentes, mas também para adultos, português, não estupidificante, não condescendente, bem escrito, bem desenhado. Que bom. Estou aos poucos a reconciliar me com a bd e as novelas gráficas.

her

Cancelei a HBO e ando a ver filmes gravados na box. Esta semana foi a vez do Her.

AVISO: SPOILERS E MUITA, MAS MESMO MUITA, MÁ-VONTADE

Se calhar é má vontade minha (eu sei que é) mas parece-me que o Joaquin Phoenix faz sempre da mesma personagem em todos os filmes, sempre o mesmo tarado, mas em diferentes estádios de psicopatologia. O filme passa-se num mundo indie em que tudo é fofo, confortável e bem iluminado, mas o nosso herói coitadinho sofre muito porque a mulher o deixou e ele é tão bonzinho e vive num apartamentozinho de luxo e tem um empregozinho tão quiduxo a escrever cartinhas de amor, ó, tão sensivel que ele é, buhuhu, punhos enrolados a rodar em frente aos olhos. Eu juro que na primeira meia hora, vá, quinze minutos, tentei levar o filme a sério mas não consegui. O psico-patinho resolve então arranjar um — aspas com os dedos — “sistema operativo” ou seja, uma acompanhante digital, para: a) não faço ideia, b) fazer de conta que tem uma namorada, c) lamentar-se a alguém porque já ninguém tem paciência para o aturar. A acompanhante digital tem voz de gaja boa e claro que é interpretada por uma gaja boa (que seria, meu deus, se alguém feio entrasse neste filme), e é uma espécie de mãezinha/coach-de-auto-ajuda/operadora-de-call-center que tem de o aturar twentyfourseven, passar-lhe a mão pela cabeça e achar o máximo tudo o que ele diz/faz. Ele é sempre bonzinho e bonitinho e fofinho e usa casaquinhos de malha, e acha tudo poético e profundo porque lá está, com água pelos artelhos, é difícil mergulhar de cabeça. É claro que a gaja farta-se porque lá por uma pessoa não ser real não quer dizer que seja de ferro e é então que ele repara oh, surpresa! afinal o mundo não gira só à minha volta, o mundo também gira à volta de cada um destes anormais que passam por mim na rua agarrados ao telemóvel, sem tirar os olhos dele, cof cof, wink wink. O filme é uma bolha polida, com tudo a condizer, um conceito trezentos e sessenta como se costumava dizer em publicidade no início deste milénio. Lá pelo meio ainda conseguem que ele apareça com um chapeuzinho igual ao do holden caulfield e do ignatius reilly, duas das personagens mais imbecis da história da literatura amadas pelos hipsters do sexo masculino. Não há acidente, atrito, dissonância, não há lixo, só formalismo e conceptualismo fruto de um hi(p)stérico culto da superficialidade. No fim de contas aquilo para mim funcionou como uma comédia aborrecida com um delivery mesmo muito longo ou então como um gigantesco anúncio a uma operadora móvel de telecomunicações. Eu sou uma pessoa ruim, eu sei, e tenho uma pedra no lugar do coração, mas continuo a achar que o filme devia chamar-se “A minha mão direita versão 2.0” fap, fap, fap, if you know what I mean.

diário #20210207

Não consigo descrever o prazer que me dá uma máquina de roupa branca lavada com um pouco de lixívia. O cheiro a limpo, a pureza e a calma que me transmite. Tenho andado a optimizar o espaço e a organização aqui em casa porque não tenho nada para fazer. Não se acredita na quantidade necessária de extensões e fichas triplas de que uma pessoa precisa para ter as coisas a funcionar em condições. Tudo precisa de ser carregado, tudo precisa de um adaptador, tudo tem de estar pelo menos umas horas por dia ligado à ficha. É claro que as tomadas são sempre poucas e estão geralmente escondidas atrás dos móveis. Não estou a trabalhar mas mantenho a mesma rotina, acordar, pequeno-almoço, banho, vestir, aprender qualquer coisa nova no computador, fazer almoço, regressar ao computador, tentar manter-me activa o suficiente para não emburrecer e quando regressar ao trabalho não sentir o choque. Segunda-feira começa o pré-escolar online e a organização dos horários, material, hardware, software, plataformas e passwords deixou-me em stress pelas pessoas que têm mais do que um filho e de trabalhar o dia inteiro, e já nem falo nas tarefas domésticas. A comida já me mete nojo, já não lhe suporto o cheiro, o dia todo a fazer ou a pensar em comida para três. Para me distrair escovei todas as juntas dos azulejos da casa de banho com lixívia e uma escova de dentes. Comecei a ler o Shuggie Bain e estou a achar bastante difícil por causa do sotaque e do calão da Glasgow operária dos anos 80. Ainda vou a meio mas estou a gostar muito, e já estou a ficar triste porque algo na história está a correr bem e sei que não vai durar. Vejo o Marcelo a ser entrevistado pelo Ricardo Araújo Pereira e fico com refluxo, vejo as reportagens sobre os indevidamente vacinados e rio-me muito com a indignação das pessoas, será que achavam que os portugueses iam deixar de ser portugueses por causa do covid? Por baixo dos tapetes só encontro lixo.

Tanta gente, Mariana

“Para mim, essa experiência, a da vida, foi sempre para mim demasiado difícil. Nunca me habituei a ela e isso é estranho porque todas as pessoas a consideram uma coisa simples e natural, a mais natural e mais simples de todas quantas existem. Eu fiz sempre cerimónia e não procedi por isso como devia, como procediam as outras pessoas, mesmo as mais broncas e as mais rudes com à-vontade. Falei alto quando as regras mais elementares mandavam falar baixo, calei-me quando devia absolutamente dizer qualquer coisa, não soube estar. Eu, de facto, nunca soube estar. Escolhi sempre mal as ocasiões para falar e para ficar calada. Troquei tudo, baralhei todas as coisas a ponto de não me achar a mim própria.”

“Detesto as boas donas de casa. Se são pobres, esfalfam-se a trabalhar, se são remediadas ou ricas arranjam uma ou mais pessoas para se esfalfarem no seu lugar. De qualquer modo são escravas do trabalho ou então da vigilância com outras escravas às suas ordens. A vida a correr lá fora, os maridos e os filhos a correrem com a vida, metidos nela, e as donas de casa a esfregar, a limpar, a dar brilho aos metais. Ou a ver as outras a fazê-lo. (…) O que a vida já correu e elas sem a verem. Sem darem por nada. Ficaram sozinhas e não se dão conta. “

Maria Judite de Carvalho é tão forte que tenho de fazer pequenas pausas de vez em quando para respirar.

Mrs. Caliban

“Não estou doente. Estou de luto. Isso significa que tenho de guardar as forças para seguir em frente. E se estiver cheia de comprimidos, dou cabo da minha resistência, não é verdade?”

Um dos livros mais surpreendentes que li ultimamente, com donas de casa suburbanas, adultério e criaturas fantásticas, lembrou-me o Eduardo Mãos de Tesoura.