diário #20211121

Não sei porque continuo a vir aqui despejar letras. Muitas vezes penso que devia desistir de quase tudo, limitar-me ao trabalho fabril e doméstico. O esforço contínuo para me tentar aperfeiçoar parece-me cada vez mais infrutífero. Tento moldar os maus instintos mas eles estão sempre lá, em banho-maria. Para quê continuar a tentar algo mais do que subsistir quando subsistir já me toma todo o tempo e energia? Vale a pena todo o esforço? Para estar a par, para me instruir, por tentar ser menos medíocre, porque sim, tenho de me esforçar muito, porque me custa e me cansa tornar-me mais tolerável. Gostava de ter orgulho em ser uma besta, mas não consigo, e como os concorrentes dos reality shows, gabar-me de ser sempre igual a mim própria.

Pelo mundo assiste-se a uma vaga de demissões sem precedentes. As pessoas estão descontentes com os seus trabalhos. Eu gostava de me demitir de mim própria. Deixar de trabalhar tanto para ser eu e passar a ser outra coisa que requer menos esforço. Este artigo diz que a principal razão por que abandonamos as coisas, sejam empregos, parceiros ou passatempos é a falta de feedback. Ouch. Touché. Já que não consigo controlar o feedback dos outros, tenho de aprender a viver sem feedback. Treinar a paciência e a resistência, limitar-me ao básico, comer, dormir, trabalhar, limpar. Fazer como os crescidos, encharcar-me em comprimidos ou álcool, para manter a roda a girar, já que não vou mesmo sair do mesmo sítio. Não me interpretem mal, estou impecavelmente saudável, mental e fisicamente, não tenho dores, não estou deprimida. Com 40 anos tenho eventualmente de me habituar a estar só, não no mundo mas na minha cabeça. E parar de tirar notas, de ter curiosidade por coisas, de tentar pensar, de guardar ideias para investigar mais tarde. DE QUERER PARTILHAR CENAS COM OUTRAS PESSOAS. Ser adulto é afinal estar confortável com a própria cobardia.

Agora vem o natal. Mais uma carrada de tarefas extra e esforço extra para fazer de conta que acho esta merda divertida. Não tenho tido concentração para ler. Tenho As Pequenas Virtudes (Natalia Ginzburg) e o Caste (Isabel Wilkerson) a meio. Chafurdo na internet fofinha para uma dose diária de dopamina.

Na semana passada o meu pai ofereceu-me um imperador. Estive meia hora a lutar com as tripas, escamas, guelras e barbatanas. Fiquei com os dedos todos picados e raspados. Acho que se resume a isto: não quero mais peixe à borla porque não quero ter mais chatices. Não há almoços grátis, pois bem, prefiro não comer.

16 pensamentos sobre “diário #20211121

  1. Olá!
    Toma lá um feedback: gosto muito de te ler, gosto muito de conseguir ver uns bocadinhos dos teus pensamentos, e fico bem contente quando recebo um alerta no meu email a dizer que está um texto novo à minha espera! Eu também tenho vontade de me despedir várias vezes por dia, caso isso te faça sentir menos alien… abracinho!

  2. Já me despedi uma vez. Foi engraçado… durante a primeira semana. Depois não. Mas valeu a pena a luta porque agora estou onde quero e sei quem sou.

    Ah! E tive de pesquisar o que caralho era um imperador…

  3. Eis a questão: seres de outra forma qualquer não completará as tuas medidas. Acredita. Deves adorar-te porque esse caminho que escolhes para seguir é o que dá sentido à vida: o que seria de nós se deixássemos de enfrentar lutas, de nos enriquecermos e de sentir? O feedback é um bom reforço positivo – é! -, mas não é o essencial.

    (tanto, tanto, retorno para ti: as tuas reflexões são para lá de pertinentes. o teu sentir e a tua forma de o exprimires prova que és a antítese de um alien. e “QUERER PARTILHAR CENAS COM OUTRAS PESSOAS” é a prova de que és um ser social. ai, SJ, está tudo – tudinho – certo. a sociedade, esse conceito tãããão lato, é que tem de corrigir o seu rumo.)

  4. Eu venho aqui só dizer que fico muito contente por saber que estás bem mental e fisicamente e sem dores.
    Um beijinho, até breve.

  5. A falta de feedback é de facto uma coisa lixada, mas, p.f., continua a “vir despejar letras”, são importantes para ti e para quem (com eu) te lê.
    A curiosidade é o que nos faz sempre ir mais além, e temos o dever, para connosco próprios de tentar sempre o melhor de nós.
    Obrigada pelas letras! Bj

  6. O feedback é algo que gostamos de receber pela vida inteira. Mas também é preciso saber dá-lo. Uma das coisas que ando a tirar da minha vida são exactamente as relações sem reciprocidade, são tóxicas…a princípio até não nos importamos de só dar mas com o tempo isso causa uma erosão grande, um vazio…seja na vida real, seja na internet, seja onde for. Eu gosto de a ler, às vezes digo-lhe isso mesmo ou outra coisa qualquer que significa isso.
    ~CC~

  7. Aqui fica o meu feedback: gosto muito de te ler e do que lês (já aqui vim buscar várias sugestões de leitura e nunca me arrependi). Vale a pena o esforço.

  8. São tantas vezes que coloca por palavras aquilo que eu penso e sinto é uma prova que estamos quase todos fartos desta brincadeira! Não dá para dizer “stop”, pôr em pausa, já não quero brincar mais a isto.
    Quero tudo aquilo que pede aqui.
    Mas ao contrário de si doí-me sempre alguma coisa, há sempre uma dor, vai é alternado de sítio, nem que seja na alma (ou o que quer que isso seja).

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