diário #20211012

Deixei de conferir diariamente os números da covid-19. Não como sushi desde Março de 2020. Não saía de Portugal desde 2019, mas no fim de semana lá fomos de passeata. Não tirei fotos trendy-lifestyle nem comi refeições incrivelmente instagramáveis, tomei o pequeno-almoço no carro depois de comprar café, sumos e donuts numa bomba de gasolina. Não fomos “viajar”, não nos imbuímos na cultura local, comemos no McDonalds e fizémos a festa sem foguetes, só com canas. Deixei de alimentar expectativas sobre as férias-barra-o-tempo-livre. Estou alimentada, não estou a dormir ao relento, está tudo bem, já não tenho espaço mental para me preocupar com certas coisas. Das duas abordagens possíveis ao novo Prémio Nobel da Literatura, a primeira é lá estão eles armados em bons a dar prémios a autores que ninguém conhece, a segunda (que é a minha) é que sou uma jumenta inculta que nunca sequer tinha ouvido falar naquele autor, quanto mais ter lido um livro por ele escrito. A tendência contemporânea dos cursos de escrita criativa para fomentarem apenas o desenvolvimento de personagens e situações que tenham uma função prática activa no enredo é um pouco paranóica; se existe é porque tem de ter um significado, se não tem um significado então não serve para nada e deve ser eliminado; já no nosso quotidiano nadamos constantemente numa sopa de factos e personagens não conducentes a causa ou consequência alguma. Isso de tentar ver sentido em tudo (ou de não ver sentido em nada, já agora) é coisa para nos enlouquecer progressivamente, e a quantidade de narrativa americana-americanizada-americanizante que consumimos não ajuda. Abandono progressivamente o medo do ridículo, deixando de fazer de conta que entendo aquilo que não percebo, abstrações conceptuais verborradas por intelectuais, vazios delimitados por arabescos de palavras. Alimento a fantasia de ir beber um copo após um dia de trabalho, antes de ir para casa, onde me esperará o jantar feito, a mesa posta, a criança de pijama, banhada, penteada e com as unhas cortadas. Quero sentar-me ao balcão do Cheers com uma mini e um pires de tremoço a ler o jornal. Há pessoas que nunca põem nada, colocam sempre; eu não sou dessas pessoas. Leio como quem cava sofregamente à procura de ouro, mas às vezes só consigo mesmo ir alargando a sepultura. Saber quando parar, é sempre o mais difícil.

Um pensamento sobre “diário #20211012

  1. Ah!, eu conheci uma pessoa que não punha nada, colocava tudo. Então era ouvi-la dizer, coloca aí esta palavra. Coloca a pasta em cima da mesa, coloca o cinto (de segurança). Quando eu lhe sugeri que usasse o verbo pôr, ela respondeu-me que quem põe são as galinhas. Ainda tentei: sim, as galinhas põem, mas é na especialidade ovos. Pode haver outras especialidades, o verbo não se importa. Mas não. Continuou com o colocanço globalizado.

    E também detesto americanadas.

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