diário #20210620

Esta semana consegui almoçar num dos meus sítios favoritos, dentro do carro no parque de estacionamento do Lidl. Dá-me paz de espírito. Parece-me que adoptei inconscientemente a espera pela vacina como um objectivo de vida, uma cenourita para me fazer chegar uns metros mais à frente. Apaziguou-me a angústia, preencheu-me o vazio existencial, e agora ando preocupada com o que terei de arranjar a seguir para continuar a fazer rolar os dias sem sofrimento, um qualquer entretém. Não tenho prazer em quase nada, caí no caldeirão da obrigação quando era pequena, qualquer acção, mesmo que gere satisfação, me parece apenas mais um item do rol dos afazeres quotidianos que devo completar, só a imobilidade me traz verdadeiro bem-estar. Não consigo deixar de pensar no Fulgor Instável das Magnólias, estou quase a recomeçar a leitura, só para me apaziguar. Não gosto de usar a palavra vício e viciante, mas ficou-me uma necessidade muito forte de voltar a consumi-lo. Quem teve pais extremosos tem muita dificuldade em aceder a uma parte considerável da experiência humana que é ter uns pais de merda. Tenho lido pouco, o meu discurso é incoerente, remo num mar de palavras sem sair do sítio. Tenho um texto para acabar e não consigo ver claramente o que posso ainda mais dizer sobre o assunto. Li dois livros muito bons esta semana, mas não tenho excertos porque ainda não aprendi a dobrar os cantos aos livros digitais. “How to do nothing, resisting the attention economy” e “Craft in the real world”. Não tenho vontade de falar nem de escrever, só o silêncio e a imobilidade me confortam.