diário #20210610

Comprei um pacote de sementes no Lidl e lá dentro vêm uns pinhões arredondados que mais parecem carraças. Estou quase a ver-me livre da necessidade de exigir aos outros, da mesma forma como sempre me exigiram a mim. Ainda me falta aprender a não ver tudo como uma obrigação, mas lá chegaremos. Já cortei com o hábito de tentar fazer tudo perfeito, fui me deixando errar bastante para me habituar e não estou arrependida. Tenho ainda de aprender a receber elogios sem os deflectir e sem parecer arrogante. Achei que deixando de beber café iria tremer menos, mas isso não aconteceu. Já tive vergonha que me confundissem com um alcoólico até tomar consciência que nada em mim é superior a um alcoólico e que por isso não devo ter vergonha nenhuma. Ao ler um texto muito mal traduzido lembrei-me do que um professor que tive costumava dizer “uma orquestra dirige-se, um filme realiza-se, das mentiras apercebemo-nos”. Apercebi-me esta semana, por causa da quantidade de colegas que estão de férias, que não é o excesso de trabalho que me stressa, mas o constante ping! do email e do chat que usamos para comunicar. Na tv os mesmo entrevistam os mesmos, num 69 perpétuo. Por todo o lado escândalo e gozo com o artista que produziu e vendeu uma obra imaterial. Como se todos os dias não se comprassem e vendessem bens imateriais, como se um fato da Boss feito em Santa Maria da Feira fosse igual de um fato da Maconde feito em Santa Maria da Feira, como se um quadrado com fita adesiva no chão fosse muito diferente de um urinol ou um quadrado preto pintado sobre um fundo branco, como se não existissem indemnizações por danos morais, como se todas as Start-ups valessem o dinheiro que os fundos de investimento lá enterram, como se resolver certos problemas com dinheiro não fosse apenas uma forma de manter a imaterial sanidade mental, como se 1 milhão de seguidores no instagram não tivesse qualquer valor, como se o acto simbólico de comprar uma coisa só porque se pode não fosse a cereja no topo do bolo do late-stage-capitalism. Mais do que estar com pessoas, sinto falta da aleatoriedade, de ouvir conversas nos transportes públicos, de ver sítios novos e coisas casuais a acontecerem. Da janela vejo os gladíolos da vizinha, que de tantas flores e tanto peso se projectam na horizontal em vez de na vertical. Nunca tinha tido a experiência de ver um texto meu editado (não no sentido de publicado, mas sim analisado e melhorado) por um profissional, e é, como diria o Fernando Mendes, um espectáaaaaaaculo.