diário #20210522

Fui sozinha ao teatro. Quando regressava a casa pus me a pensar há quanto tempo não conduzia à noite. A dieta rigorosa deixa-me menos cansada mas mais impaciente, não tenho a possibilidade de me apaziguar com chocolate. Tenho lido pouco e ando desconcentrada, não sei se por causa da alimentação ou do mundo em geral. Detesto que me perguntem “Tudo bem?” como forma de cumprimento, especialmente se não me conhecerem de lado nenhum. O que é suposto eu responder? Vivem no planeta Terra, como eu, o que é que acham? Detesto que me telefonem e me bombardeiem com perguntas como se eu tivesse a obrigação de as responder. Tudo bem? Que raio de pergunta é essa? Não têm nada a ver com isso. Em 2021 ainda se fabricam e lançam bombas, algo inacreditável e que desde miúda achei que iria acabar com o fim do século XX. Em 2021 ainda se fabricam e lançam bombas e eu preocupada porque me esqueço de tomar os medicamentos. As minhas preocupações são ridículas. Tento não magoar ninguém, é o mínimo que posso fazer, já que não consigo ajudar, não estorvo. Há 20 anos que o ordenado base de um designer é o mesmo. Como tudo foi ficando mais caro, fui deixando de gastar dinheiro em certas coisas. Felizmente não tenho um chefe inseguro, que é das piores coisas que há para nos foderem o juízo. Ando a ler pouco e sem entusiasmo. Li o The Nickel Boys do Colson Whitehead, bom e duro, com um twist lixado, daqueles que nos põem a ler a mesma página quatro vezes para termos a certeza que estamos a ver bem, como me aconteceu quando li o Expiação do Ian McEwan. Li o Zen e a Arte da Escrita, do Ray Bradbury, o primeiro livro que li sobre o processo de escrita que transborda entusiasmo e uma alegria quase infantil, refrescante para quem já está seco de ler sobre escritores torturados. Li o Just Kids da Patty Smith, o retrato de uma época e de uma Nova Iorque em mudança, escrito de forma terna e madura. Comecei o Uma ida ao motel, do Bruno Vieira Amaral, mas são contos e já não tenho cabeça para contos, são como fósforos que se acendem e apagam e na minha cabeça só restam cinzas. Li os Contos Esquivos da Ivone Mendes da Silva, bons, mas nada que se compare aos diários. Ando com dificuldade em lembrar-me das palavras e demoro demasiado tempo a escrever, tudo me sai com esforço. Há pessoas que falam como livros de auto-ajuda. Não gosto da designação “livros de auto-ajuda” porque para mim todos os livros são de auto-ajuda, mas enfim, vocês sabem do que estou a falar, é uma convenção estilística como outra qualquer. As pessoas que falam como livros de auto-ajuda são geralmente pouco altruístas, querem enganar-se através dos outros, convencendo os outros primeiro, como validação antes de se convencerem a si próprias. É muito mais fácil sentirmo-nos bem alavancando-nos nos outros, quer seja convencendo-os que somos o máximo ou rebaixando-os para que consigamos subir. Tenho genuína pena daquelas pessoas que envelhecem sem aprenderem nada, cheias de azedume, sempre a cuspirem farpas em direcção a tudo o que não compreendem. Que pegando numa balança e colocando de um lado aquilo que louvaram e do outro o que rebaixaram, o desequilíbrio é inequívoco. Observo a evolução dos rancores das pessoas à minha volta e tenho medo de ficar assim. Sempre que alguém tem uma atitude profundamente racista ou sexista publicamente, há sempre alguém que vem por cima e consegue ser ainda pior. Apanhei-me a ressacar The Leftovers, como um vício que sabemos que nos vai fazer muito mal mas pelo qual não conseguimos deixar de nos sentir profundamente atraídos. Duas senhoras finas com os seus brincos de pérolas falam da vida dos outros publicamente, ai q’horror as pessoas já não sabem ler nem escrever, hoje em dia qualquer um diz o que lhe apetece, é só selvagens, já viu, as empregadas agora já têm todas smartphones, a minha no outro dia até me pediu a password do wi-fi, não sabem gastar, por isso é que são pobres, é por isso que no Natal compro-lhe sempre uma lembrança, nunca lhes dou dinheiro a mais, não sabem gastá-lo, veja lá que uma vez uma disse-me que tinha gasto o dinheiro das horas extra numa corrente de ouro. É também por isto que me custa cada vez mais sair de casa e ter de interagir com pessoas.

2 pensamentos sobre “diário #20210522

  1. Ler-te faz com que não me sinta tão sozinha…. passei o mesmo há pouco tempo, estava a comer uma sandes num cafe, na altura do caso do Zmar, e vi la duas senhoras muito bem compostas a dizer “que ng tinha o direito de ceder a casa de outras pessoas a outros, ainda por cima estrangeiros que nem sabem o que é limpeza”. Tenho nojo das pessoas às vezes.

Os comentários estão fechados.