Eu sei que é chato e comprido mas têm de ser fortes

(os professores de economia que me perdoem, por não saber a designação correcta para todos estes fenómenos)

Num mercado aberto e concorrencial, há diferentes marcas e diferentes produtos em cada categoria. Há marcas que investem muito em publicidade e marketing, há outras que não. Há marcas que valorizam a qualidade do produto ou do serviço que prestam enquanto outras se posicionam pelos preços baixos ou pela facilidade de utilização. Produtos concorrentes que apresentam características e níveis de qualidade muito semelhantes tendem a diferenciar-se por coisas mínimas, mas que são suficientes para o consumidor fazer a sua escolha, em mercados saturados de bons produtos e com preços equilibrados. Quantas vezes não tomámos uma decisão no corredor do supermercado, por causa de benefícios mínimos, ou por rejeitarmos inconvenientes microscópicos? O nosso tempo é limitado, o nosso dinheiro é limitado e por isso as nossas decisões de compra têm de ser tomadas com base numa análise prática e por vezes injusta, porque apesar de nunca termos toda a informação necessária para sermos juízes imparciais temos forçosamente de tomar uma decisão, ou ninguém lava os dentes lá em casa esta semana.

Quando as marcas estão há muito tempo no mercado, algumas acabam por se tornar preferidas dos consumidores, acabando por se distinguir pela qualidade que oferecem, pelo baixo preço, por estarem na moda, por uma série de factores que fazem com que elas se transformem em líderes de mercado. E sendo líderes de mercado têm mais dinheiro para investir em publicidade, em actualizar as suas linhas de produção, em investigação e desenvolvimento de novos produtos. Mas por vezes os consumidores mudam de expectativas e deixam de procurar os produtos de uma marca, em detrimento de outra que oferece algo novo. E não precisa de ser algo muito relevante às vezes o factor novidade é suficiente. Todos conhecemos grandes marcas e produtos de muito boa qualidade que numa altura estão no topo das prioridades dos consumidores para logo a seguir deixarem de estar. É o mercado a funcionar. Outras vezes é apenas uma questão de timing, algumas marcas não têm sucesso por se apresentarem no mercado demasiado cedo, antes de haver um número suficiente de consumidores interessados naquele produto, que dois ou três anos mais tarde seria sem dúvida um sucesso de mercado. Lembro-me quando abriu a primeira pizzaria que entregava ao domicílio aqui onde moro. Durou pouco tempo, mas uns anos mais tarde havia quatro diferentes a operar no mesmo território, e assim foi durante anos. Até aparecer o UberEats e a oferta de comida ao domicílio se ter alargado tanto que duas delas deixaram de existir.

Há muito boas marcas que acabam por deixar de existir, muitos bons produtos que são descontinuados porque não existem consumidores suficientes para eles. No entanto também há algumas marcas que conseguem manter-se fora dos grandes circuitos comerciais, apostando em nichos ou usando exclusivamente a internet para venderem os seus produtos. É uma questão de adaptação da dimensão do negócio ao mercado de que dependem. Não existem marcas sem consumidores, não existem produtos se ninguém estiver interessado neles. Todos nós já deixámos de comprar algo de uma marca e passámos para outra que nos pareceu mais interessante por uma inúmera variedade de razões. Dentro destas razões podem estar questões práticas de disponibilidade, preço ou qualidade, questões pessoais de preferência e adequação, ou questões imateriais como sentimentos de pertença ou valores transmitidos. Quantas vezes não deixámos de ir a um restaurante porque alguém que conhecemos teve uma intoxicação alimentar, porque fomos mal-servidos ou porque encontrámos uma mosca na sopa? Quantas vezes já tínhamos ido a esse restaurante e saímos de lá satisfeitos? Quantas vezes deixámos de ir a um restaurante simplesmente porque nos esquecemos dele ou porque abriram outros novos, melhores ou mais convenientes mais perto de nossa casa? Quantas vezes deixámos de ir a um restaurante que achávamos o máximo porque o nosso gosto evoluiu?

Muitas pessoas estão conscientes de que é assim que o mercado funciona e muitas pessoas não estão. Muitas pessoas concordam com o modo de funcionamento dos mercados e outras não. Muitas pessoas fazem as suas escolhas de compra de forma consciente e muitas não. Não há por onde fugir, podemos não concordar com nada disto, podemos manifestar o nosso desagrado, mas é assim que a maior parte dos mercados funciona, para o bem e para o mal. O consumidor escolhe o que quer comprar e o que não é escolhido acaba por diminuir ou até mesmo desaparecer.

Os consumidores evoluem e os mercados evoluem. Novos produtos são lançados, cada vez mais aperfeiçoados ao gosto dos consumidores, que vai mudando e adaptando-se a novas necessidades, ambições e preferências. Coisas perfeitamente boas e sólidas que eram valorizadas antigamente, deixam de o ser, em detrimento de novas características. Lembram-se da Nokia, líder de mercado, cujos telefones duravam uma semana sem ter de carregar a bateria? Lembram-se do Blockbuster, da Kodak, do MySpace, da Polaroid, dos Walkmans, do Concorde, das lojas de discos, dos jornais, das revistas e dos brinquedos da vossa juventude? Se pesquisarem online há listas enormes de empresas que encolheram brutalmente ou mesmo desapareceram porque não conseguiram adaptar-se aos novos mercados e à concorrência. Nalguns casos foi um problema de gestão, noutros casos era inevitável. É claro que há nostálgicos, coleccionadores e saudosistas destas coisas, mas a maior parte das pessoas acaba por avançar com a corrente principal do consumismo adaptada ao seu tempo.

Num mundo em que a oferta é enorme, a concorrência brutal e em que todos os dias temos de tomar decisões, por vezes são as pequenas coisas que fazem a diferença. Se a maior parte das pessoas deixar de comprar certos produtos eles deixam de estar disponíveis ou passam a existir apenas em nichos de mercado ou apenas online. Para o consumidor comum, coisas que eram valorizadas antes deixam de o ser (baterias que duram dias), coisas que eram impensáveis passam a ser banais (robots que aspiram sozinhos!), coisas banais passam a inaceitáveis (sair de casa para poder ver um filme). Os consumidores evoluem e, inevitavelmente, os mercados evoluem com eles.

Não é a cancel culture, é o mercado a funcionar, estúpidos.

Um pensamento sobre “Eu sei que é chato e comprido mas têm de ser fortes

  1. Não é chato, apesar de ser comprido – mas faz muito sentido. Já “cancelei” imensa gente e muita coisa, porque não quero mais daquilo, obrigada. É por aí, é.

Os comentários estão fechados.