diário #20210423

Ando a criar cuidadosamente meia dúzia de pêlos no queixo, como quem cria animais de quinta. Passo os dias a fazer-lhes festas, corto-os de manhã com a gilette, deixo-os engordar e fortalecerem-se até ao momento em que, com um clarão de electricidade, os matarei para sempre. Ouvindo um podcast com a Deborah Levy, descubro que também eu não sei meditar a não ser dentro de água. Só fazer piscinas me alivia como nada mais. Faço amiúde contas às horas do dia para tentar encaixar sessões de natação na minha semana mas nunca consigo. O instagram quer me vender collants para pessoas gordas e fico profundamente chocada. Como é que o algoritmo, que tudo sabe e tudo vê ainda não percebeu que entre as coisas que mais odeio no mundo estão os collants? Esta semana quase chorei por causa de uma foto de um frango assado. As batatas fritas numa travessa de inox, a toalha de papel texturado aos quadradinhos, adivinhar o escaldão das primeira batata na língua, ainda sem sal, e de seguida as outras, já temperadas com o saleiro em vidro com baguinhos de arroz lá dentro. Sentir a textura da toalha nos braços, o barulho da minha mão a passar sobre ela, o tilintar da tenaz na travessa de inox, os talheres ordinários, facilmente dobráveis com um ornato na diagonal. O pichel de vinho da casa. A cesta de plástico beje com um relevo em forma de entrançado e dois papo-secos lá dentro. A grossura baça da chávena riscada nos lábios. A banalidade disto tudo é comovente. Decidi-me a comprar um ebook reader com o dinheiro da devolução do IRS que ainda não sei quando virá. Custa-me deixar de acrescentar lombadas à estante, tenho o fetiche do papel, como uma vez me disse um professor. Desconfio que o meu corpo passou a confundir frio com dor, já não os consigo distinguir. Desejo a alguém que parte, que encontre tudo aquilo que procura, mas fica-me a remoer na cabeça se o que acabei de fazer, em vez de transmitir esperança, não acaba por ser mais um praga que lhe rogo. Como já diziam os Rolling Stones, “…you get what you need”.

2 pensamentos sobre “diário #20210423

  1. Eu também recebo anúncios de collants de gorda, e confesso que já me fizeste ganhar o dia. Se tiveres razão, o algoritmo não SABE que (corrijo, se) eu sou gorda, apenas acha que eu poderei gostar de collants. 👍

  2. O algoritmo não é muito refinado, é que nunca comprei collants nem pesquisei por collants online. Já coulants não posso dizer o mesmo :D

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