diário #20210412

Todos os dias, à meia noite e cinco, passa um avião sobre o prédio onde moro. Ainda há aviões com pessoas lá dentro. As aulas de escrita são uma espécie de sessões de psicanálise de grupo. Não quero escrever sobre a morte, não sei sobre o que quero escrever. Preciso de escolher um tema para um texto, mas detesto decidir sobre o que escrever, um defeito profissional, prefiro que me mandem do que ir sozinha. O tempo está húmido e doem-me mais as articulações. Quando o médico me pergunta numa escala de 0 a 10 quanto me dói, nunca sabia o que responder. Entretanto adaptei a escala de Richter à dor, até 3 existe mas passa despercebida, 4 e 5 sinto-a mas consigo continuar na minha vida, 6 e 7 tarefas básicas ficam bastante dificultadas, 8 e 9 não sei o que são nem quero saber. A minha vida vai encolhendo, as pessoas com quem falo são cada vez menos, os sítios onde vou, como se estivesse a implodir em câmara lenta, absorvida em mim, por mim, para dentro de mim. Não vou à rua, deixei de falar ao telefone, quero estar na cama a ler. Será isto preguiça, doença mental, ou apenas o princípio de Darwin, a minha adaptação progressiva ao mundo que me rodeia, ou uma forma de não comprometer o equilíbrio homeoestático. A sobrevivência do mais quê? O meu dia são tarefas e obrigações, eu a tentar despachar o sofrimento todo para adiantar serviço, para eventualmente quando terminar, limpar as mãos às calças e ir viver de uma vez, no dia de são nunca, sete palmos abaixo. Vou remoendo ideias para escrever mas nada me agrada, gosto de escrever sem fim à vista, para me ajudar a pensar. Escrevo subcontratando as mãos para que pensem por mim, porque o cérebro já não funciona bem, numa espécie de outsourcing do pensamento. As mãos são poderosas como o cérebro, as mãos têm uma sensibilidade incrível, prefiro artesãos a artistas, o domínio do corpo, a disciplina dos métodos, o respeito pelo material, o concreto. Afasto-me cada vez mais da abstração e da criatividade pura. Procuro o tema para escrever, palavras ao serviço de uma causa, joeiro a espuma dos dias, a pobreza de quem trabalha, #A_Pandemia, coragem e cobardia, tento desemaranhar as memórias, mas algumas já não as sei distinguir de histórias inventadas, de sonhos que remoí durante dias até se transformarem em falsas recordações. Odeio pessoas que fazem contabilidade dos livros que lêem. Este ano já li vinte e um.

11 pensamentos sobre “diário #20210412

  1. O tempo húmido e as articulações que se ressentem lembra-me uma velhota que ia ao escritório e em toooodas as reuniões apontava para o ombro e dizia «isto é como um relógio, quando começa a doer, já sei que o tempo está a mudar» e nós, os jovenZzzz, ríamo-nos sorrateiramente, coitaditos. Hoje em dia, com menos 30 anos do que a velhota tinha na altura, já não acho graça nenhuma.

  2. A vida pode estar a encolher, mas nunca pares de escrever. É um bálsamo ler-te, no meio de tanto ruído que há por esta internet fora.

  3. Ah, sj, é tão bom ler tudo e qualquer coisa escrita por si! Ainda há minutos saiu-me uma gargalhada com a ideia das formigas a tocarem-lhe à campainha. Escreva, escreva, é mesmo isso. Quanto mais melhor (para mim).
    Um abraço apertado, se puder ser.

  4. Gosto imenso de ler o que escreve, identifico-me com vários sentimentos e pensamentos acerca de mim, das pessoas e do mundo.
    Acho que devia escrever um livro de “crónicas” ou simplesmente colocar em livro muito do que já escreveu por aqui. Eu comprava na hora.

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