diário #20210317

Confesso que tenho dificuldade em perceber o que sofrem os “burgueses do teletrabalho” como eu por não sairem de casa. Não sinto dificuldade nenhuma em estar em casa a trabalhar meses a fio, especialmente agora que a escola voltou a abrir. Em casa nunca me aborreço. Lembrei-me do espanto que senti quando percebi pela primeira vez que Sísifo era um homem. Sempre o tinha imaginado mulher e senti-me chocada e até um pouco ofendida quando percebi que não era. Depois percebi que a versão feminina de Sísifo não chega sequer a mover a pedra, não chega a sair do mesmo sítio porque está sempre a parar para resolver os problemas de todas as outras pessoas à sua volta. Segura a pedra com um pé enquanto dá colo a uma criança, fala com a mãe ao telefone com ele entalado entre a cabeça e o ombro, e mexendo, com a mão que lhe resta, a panela do jantar. Comecei a ler o Bird by Bird da Anne Lamott e estou a dobrar os cantos a todas as páginas, de bom que é. Para além disso também é muito divertido. Terminei A Floresta de Bremerhaven de Olga Gonçalves, uma jóia do PREC, com um dispositivo narrativo invulgar, composto quase exclusivamente por diálogos em que ouvimos apenas os interlocutores do narrador e nunca o que o narrador lhes diz. Passa-se em Porto Covo, mas na minha cabeça vejo Milfontes, onde passei algumas férias de infância nos anos 80. Lembro-me das noites de calor e de o meu pai me bater por eu não conseguir dormir e estar sempre a chorar, cheia de babas das melgas que me atacavam impiedosamente. Esta noite acordei de um sonho em que subitamente tudo começou a tremer e a vibrar sem explicação, percebendo depois ao acordar que essa vibração do sonho tinha sido provocada por um dos habituais picos de batimentos cardíacos que costumo ter depois de me deitar. A minha cabeça criou uma história para justificar o que estava a acontecer ao meu corpo, que bonito, efabulo até a dormir.

7 pensamentos sobre “diário #20210317

  1. Por acaso gostava de conseguir ir para a caminha às dez, mas mesmo quando vou fico a anhar nos meus jogos de decoração ou colorir (sofro dos nervos e tenho uma idade emocional muito baixinha)

  2. é que eu nunca fico no telemóvel a scrollar infinitamente no instagram… nuuuuuunca… nunquinha… náh.. népia… não…

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