diário #20210310

Dói me muito a cabeça. Respiro devagar para a cabeça latejar menos e tomo um paracetamol. Vem me à boca uma daquelas frases nojentas começada por “as pessoas”: as pessoas gostam de achar que a sua maneira de fazer as coisas é a única, a absoluta e verdadeira. As pessoas e as coisas variam muito mas as pessoas gostam de achar que não, e estão muito seguras das suas convicções. Acordei cedo para levar a minha avó para fazer análises de rotina no hospital e não bebi café. Percebo agora porque me dói tanto a cabeça. Não consigo concentrar-me nos episódios novos de American Gods por causa dos dentes do Ian McShane, não consigo parar de olhar para as capas de porcelana estilo Barbie que vão tão mal com tudo o resto. Tenho formigas na cozinha há mais de um ano, já gastei demasiado dinheiro em armadilhas e venenos e não consigo exterminá-las. São minúsculas e passam por todos os buraquinhos, até entram em frascos fechados se não forem daqueles com borracha para vedar. Estou cansada de ter de tirar tudo da despensa, dos armários, da bancada. O livro da Carmen Maria Machado é muito bom, tirando aquela parte do Law and Order, francamente dispensável. Comecei a ler A Floresta de Bremerhaven, de Olga Gonçalves, por sugestão de Susana Moreira Marques num programa de tv de cujo nome não me lembro, em que se fala de escritoras portuguesas esquecidas. Forço-me a ouvir podcasts enquanto trabalho porque a música cansa-me e o silêncio apita-me nos ouvidos. Ouvir quem acha a vida fácil faz-me sentir a vida mais fácil. O paraíso é não saber que vamos morrer, adão e eva de lá e arrependeram-se. Preciso de matar as formigas, o medo de falhar e a fada do lar.