diário #20210303

Não vejo novelas há anos mas quando faço zapping e por acidente ouço um bocado do enredo cómico fico sempre impressionada como é que esta gente fala como se ainda estivesse no parque mayer nos anos sessenta. Não se faz humor sem ser por caricatura, sempre todos aos gritos como se exorcizassem palhaços. Há muita gente com talento e muita gente com audiência, raramente são as mesmas pessoas. A escola em casa continua, um pouco mais calma agora que todos começaram a baixar as expectativas, mas ainda com uma incessante necessidade de rolos de papel higiénico vazios e outros tipos de lixo reciclável que as crianças aprendem a venerar como veículos artísticos, levando a discussões dignas do programa hoarders sobre qual a quantidade aceitável de cartões e garrafas de plástico que é saudável guardar antes que alguém chame o delegado de saúde. De acordo com o livro que andei a ler na semana passada, se nos comportarmos de acordo com a cultura dominante esquecemo-nos mais facilmente da nossa mortalidade. Se não conseguirmos, temos sempre a arte como apaziguadora, como escrever para dar sentido a uma vida obcecada pelas coisas erradas. Apercebo-me que o período em que li menos foi durante a faculdade, todos aqueles tempos mortos, toda a espera para ser atendida pelo professor sugavam-me a energia. Lia mais na adolescência e leio mais agora. Os últimos livros do Oliver Jeffers não são tão bons como os primeiros, desconfio que a paternidade e o medo consequente lhe tenham contaminado a imaginação, mas enfim, quem sou eu para julgar, o medo é açúcar para a imaginação, queima rápido e deixa um vazio interior. Ainda não decidi se foram os comprimidos de Ómega 3 ou o livro The worm at the core, que me deixaram tão bem disposta ultimamente, só eu para ficar bem disposta com livros que falam sobre a inevitabilidade da morte, só eu para preferir uma lucidez crua e impiedosa ao faz de conta social. Aborrecem me nos livros e nas séries as cenas de sexo, e nas redes sociais as pessoas que perguntam inevitavelmente e por vício (como as crianças na escola se é a lápis ou a caneta) se podem substituir a farinha de trigo por pintelhos moídos de grilo da Tanzânia, ou outra qualquer substância em pó mais saudável/sustentável/holística. Dêem-me água quente para o banho, cama, almofada e edredon, um livrito e um pãozinho com manteiga e não preciso de chatear ninguém.

5 pensamentos sobre “diário #20210303

  1. “só eu para preferir uma lucidez crua e impiedosa ao faz de conta social”
    psst, não és só tu ;)

  2. O “Presos” do Oliver Jeffers é qualquer coisa. Quando vai buscar o serrote, o alinha com o tronco e depois o atira rio-me sempre até às lágrimas. Viva o nonsense!

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