diário #20210217

Apercebi-me lentamente que, tirando a família, as pessoas já só falam ao telefone quando não querem que existam provas escritas do que vai ser dito nessa conversa. Ninguém se quer responsabilizar, eu muito menos, comecei a responsabilizar-me por mim e pelos outros demasiado cedo, sempre fui a mais responsável em todo o lado, mas essa capacidade foi consumida, ardeu como combustível até se extinguir. Sempre que trazem miúdos faço questão de comer o coração dos frangos, faço o por respeito hipócrita e vergonha do desperdício, como os esquimós que dizem uma oração antes de matarem a presa. Não sair de casa está a tornar-me cada vez mais robótica e apática. Ao mesmo tempo que o presidente pensa em apertar a legislação sobre o ruído doméstico pedimos às crianças que façam educação física em casa aos saltos e que aprendam música treinando com uma flauta. Toleramos tudo. Primeiro podíamos ir à rua comprar a Caras, mas não um livro. Tolerámos isso. Agora já podemos comprar livros mas não em livrarias físicas, esses locais de consumo louco e desenfreado que estão sempre a abarrotar de gente e com filas gigantescas à porta (quem dera!). Toleramos tudo, até pessoas a respirarem para o pescoço do vizinho da frente na fila da churrasqueira take-away ou na carruagem de metro. Toleramos tudo. Se as livrarias mudarem o CAE nas finanças para poderem começar a vender chouriças, talvez pudessem voltar a vender um livrito ou dois lá pelo meio dos enchidos. Enfim, toleramos tudo, aceitamos a irracionalidade pelo bem comum, toleramos a desadequação devida à urgência, damos um desconto pela necessidade de improviso, mas bem vistas as coisas estamos nisto há quase 1 ano e começamos a ficar cansados de tanta tolerância. Não há uma matriz para o número de horas online para crianças do pré-escolar, toleramos a forma como a escola passa a irromper no espaço doméstico, aceitamos expor as nossas casas e a nossa privacidade aos olhares de estranhos. E aguentamos assim porque cremos que tudo isto é temporário, tal como eu aguentei quando frequentei uma escola temporária, em pré-fabricados com telhado em amianto e buracos no chão, que já era temporária 12 anos antes de eu lá ter andado. Esquecemo-nos quase todos os dias que (e se calhar só por isso mantemos a sanidade) a nossa vida também é temporária e que é só tolerar mais um bocadinho e pum, estaremos finalmente mortos e sossegados na privacidade do nosso caixão. No outro dia lembrei-me de voltar a usar brincos e quase já não fui a tempo, tive de forçar a entrada com um espigão de ouro barrado em pomada desinfectante e andar dois dias com as orelhas a arder e a latejar. Ando a ponderar comprar um ebook reader, poupa-se papel, tinta, transporte, mas gasta-se lítio e plástico e afins, pesa menos mas é demasiado acessível, torna-se demasiado fácil comprar livros por capricho, e alguém me dê serenidade para aceitar as coisas que não consigo mudar, a coragem para mudar as coisas que consigo, e a sabedoria para as distinguir, porque claramente não está fácil. Muitos livros são mais baratos em versão eletrónica, e posso mudar o tipo de letra e o tamanho que é coisa que me amofina bastante nalguns livros, para além de me atrasar a leitura. Apercebi-me demasiado tarde que ensinei demasiado cedo ao meu filho como argumentar. Traz-me algumas dores de cabeça e trar-lhe-á (que lindo!) alguns dissabores ao longo da vida. Agradeço profundamente que ele não seja igual a mim, que se tivesse estas aulas online estaria sempre quieta e calada no meu canto, deprimida e amedrontada com os gritos da professora, “podem falar!”, eu que sabia todas as respostas mas que me escondia a um canto para que não me incomodassem, que deixava copiar e passava as respostas aos colegas nos testes, que nunca me voluntariava para responder, que nunca punha a mão no ar para mostrar que sabia, a não ser quando o professor errava nalguma coisa e aí o erro crescia no quadro até se tornar intolerável e aí sim, eu interrompia, borrada de medo, mas interrompia, porque o erro me era insuportável. Ainda hoje os erros me são insuportáveis, sobretudo os meus, mas aprendi a tolerá-los como a tudo o resto, para conseguir viver. Sim, sempre tive boas notas, mas nem todos os professores gostavam de mim.

6 pensamentos sobre “diário #20210217

  1. Ah! A minha nova e pequena vizinha de cima esteve toda a tarde a tocar flauta e eu a trabalhar com auriculares enfiados nos ouvidos, evidentemente.
    É preciso ter cuidado com os brincos – eu projetei continuar a usá-los durante o confinas para fingir que está tudo muito bem, só que já perdi um. A hastezinha entrou em conflito com o elástico da máscara que se quis soltar numa ida ao supermercado e eu não vi. Portanto agora penduro nas orelhas só os que têm fecho de segurança anti-elásticos-de-máscaras, que nervos.
    Um abraço, sj.

  2. É verdade, desde que comecei a usar máscara já perdi 3 brincos, o que vale é que eram todos ranhosos e 2 dos sobrevivente até parelham bem um com o outro :)

  3. Por aí,as bibliotecas públicas não têm ebooks? 2020 li quase 100 livros e não comprei nenhum. A tua escola lembra me a minha, a Cidade, que saudades do amianto…

  4. Não faço ideia nunca tinha pensado nisso. Por incrível que pareça depois de ter saído da faculdade nunca mais frequentei bibliotecas. Lembro-me de uma vez, já trabalhava, ter tentado ir a uma aqui da zona e o horário coincidia totalmente com o meu horário de trabalho por isso nunca cheguei a ir. Acho que desisti de pensar em bibliotecas nessa altura, mas se calhar hoje em dia já é mais fácil. Vou investigar o assunto, obrigada

  5. Eu aqui comprei um Kindle há uns anos atrás e posso dizer que leio mais agora do que antigamente. Há imensa oferta de livros digitais, são mais baratos, posso começar a ler na hora e o aparelho em si é mais fino que a maioria dos livros que gosto, por isso também é mais “portátil”.
    Como a Patrícia mencionou , sei que há aplicações tipo Libby, em que basta ter um cartão de biblioteca para ler o livro no aparelho de forma gratuita, mas não conheço bibliotecas em Portugal que tenham parceria com a dita aplicação.

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