Estudo de mercado

No autocarro, sentados no banco atrás de mim, dois estudantes universitários conversam. Enquanto um utiliza várias vezes a palavra “cidadões” no contexto errado, o outro lê em voz alta um texto de um site no telemóvel, parando a meio das palavras como uma criança da primária. Discutem se o público alvo de uma empresa de car sharing é dos 20 aos 40 ou dos 20 aos 30. “Os “cidadões” de 40 anos, tipo os meus pais, tás a ver, não percebem de tecnologia, não tão à vontade para usar este tipo de coisas”. A cidadona do banco da frente, que se sente bastante à vontade a ler textos sem gaguejar desde a 3a classe riu-se sozinha e saiu do autocarro, a lamentar não ter dinheiro para poder de vez em quando utilizar a tal empresa de car sharing.

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Humores líquidos

Perceber já percebi tudo, sei porque me quero matar, sei porque não me quero matar, sei as causas, os efeitos, os defeitos, sei o que devo e não devo, sei o que posso, o que consigo e o que não consigo fazer. Sei que x é função de y, sei as fórmulas, as leis e as teorias, as receitas e as terapêuticas devidas.

Mas o meu corpo está se a cagar para tudo isso.

Appeadeiro

Entro no comboio e sento-me no lugar dos palermas, na diagonal de um senhor de nacionalidade indistinta mas com ar de “founder” (os founders são os novos doutores) e um daqueles babetes da websummit. Pego no meu livro, ele dedilha o telefone, e uma turista brasileira enfia a cabeça pela porta e pergunta a uma senhora de meia idade cheia de sacos de supermercado se aquele comboio pára em Cascais. A senhora diz-lhe que não, que só vai até Oeiras, a brasileira agradece e dirige-se para outro comboio. Nisto, o websumítico com cara de pasmado levanta a cabeça do telefone e num tom indignado e quase ofendido pergunta-me em português de Portugal e de uma forma extremamente arrogante “Mas como é que este comboio não vai para Cascais???” e eu repito o que disse a senhora dos sacos plásticos, que agora rói uma banana, “não, filho, vai só até Oeiras, se não estivesses sempre com os olhos enfiados no caralho do telefone terias visto o placard electrónico com letras garrafais que diz para onde vai cada comboio, quer entres pelo metro ou pela estação antiga, placard esse que é impossível não ver, enorme, iluminado, com o destino e as estações intermédias a passar em rodapé, e mesmo assim podias ter feito como a brasileira e perguntado antes de entrar, mas não, abancaste no comboio ao calhas e estás indignadíssimo e a falar comigo como deves falar com os teus empregados, ou melhor colaboradores, ou melhor ainda “coworkers”, para depois te levantares a bufar como se eu, o comboio, a cp, a puta que te pariu e a senhora que já terminou a banana e ataca agora uma laranja tivéssemos culpa da tua distracção/negligência/sobranceria e aposto que ainda ficaste a pensar que a solução ideal para tudo isto era inventar uma app, isso sim, uma app que te dissesse qual o comboio que tens de apanhar, para não teres de levantar os cornos da merda do telefone para Cascais é na linha 5.