O designer enquanto Floribella

Há sempre uma boa palavra alemã para representar ideias complexas, como wanderlust ou schadenfreude. Aposto que também existe uma para designar aquele conforto de não nos sentirmos miseráveis sozinhos. Afinal não sou só eu que ando a aturar merdas em entrevistas.

Entrei para a faculdade com média de 18,8. Tive 19,6 no exame nacional de matemática e 19,6 no exame nacional de Geometria Descritiva. O meu curso foi de 5 anos e terminei-o com média de 16. Fiz uma pós-graduação com média de 17. Tenho 13 anos de experiência. Querem-me pagar o mesmo que pagam a um puto de 17 anos sem formação num restaurante de praia. Odeio os meus pais por nunca me terem explicado que, com as minhas notas e capacidades, podia ter tirado um curso que desse acesso a profissões mais bem remuneradas. “Ah mas não eras feliz”. Não era feliz o caralho, porque fazer folhetos para supermercados o dia todo, ou ser a bitch de alguém que passa o dia a dizer “mais para a direita, mais para a esquerda, agora em azul, agora em roxo, aumenta a letra, mete a bold” dá uma felicidade que nem sei. Puta que pariu isto tudo.

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7 thoughts on “O designer enquanto Floribella

  1. Como vós percebo…. Eu com notas para entrar em Medicina achei que psicologia é que era. Continuo a adorar psicologia, mas com 10 anos de experiência, ganho agora menos do que quando comecei e sem grande (ou nenhuma) margem de progressão. E obviamente estes 10 anos foram sempre oscilantes, contratos, recibos verdes, tempo desempregada. Não é fácil.

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  2. Como disse uma vez uma directora de contas a um amigo meu que é copy: “ó zé, mas porque é que não fizeste como o meu marido e foste para director financeiro?”. Aposto que esse gajo é feliz.

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  3. Obviamente, estando a trabalhar, não posso estar para aqui a dizer que ter trabalho, às vezes, é quase tão mau como não ter, porque o factor € ajuda a relativizar as coisas.
    O problema adicional de trabalharmos na área em que trabalhamos é que isto é tido quase como um capricho de ‘artista’, não uma função com méritos, exigências e capacidades que se distinguem do que qualquer cepo pode fazer.

    E, se a isso juntarmos o facto de continuarem a chegar vagas e mais vagas de malta saída dos bancos da escola que tem ‘jeitinho’ para mandar bitaites por escrito ou ‘fazer umas desenhanças’, que se sobrepõem às vagas de gente que vai sendo chutada de agências, ateliers, boutiques e o diabo a quatro, neste momento o que tens é a ditadura dos idiotas que não percebem um boi de comunicação a conceder a benesse de poderes trabalhar para eles, porque tens muita sorte em seres tu e não os 945 atrás de ti. Mas isto sou eu, que sou pouco cínico e positivista…

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  4. irrelevante.
    poderia ter sido médico ou arquitecto, ou o que quisesse.

    o que garante que para o ano não deixam de necessitar ou decidem prescindir dos meus serviços? nada, absolutamente nada.

    só cunhas partidárias, ou contactos familiares, garantem o que quer que seja.
    as classificações são, têm sido sempre, irrelevantes.

    tenho antigos colegas “ligados” à política com classificações muito inferiores às minhas e muito menos formação que auferem em dois meses aquilo que por conta própria não facturo num ano.

    mudar no sentido de uma meritocracia seria aquilo que os incapazes que governam este País desde sempre nunca permitirão.

    no entanto, não estaria satisfeito enquanto médico, ou arquitecto ou escritor, e muito menos na oleosa gamela da política. para mudar de área necessitaria de tempo e disponibilidade intelectual que já não tenho.

    mas gosto daquilo que faço, apesar de aturar clientes que não sabem o que querem e pagam cada vez menos por mais trabalho, mais exigente, mais especializado, a necessitar de equipamento cada vez mais caro. .

    e não vai melhorar.

    Abraço.

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