Eu queria muito ter gostado deste livro

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A primeira parte é bastante confusa e, não sendo difícil de ler, fez-me voltar atrás várias vezes por causa da forma estranha como as frases estavam construídas. Comecei a desconfiar da tradução, mas como não tenho o original para comparar fiquei caladinha. Até que comecei a apanhar gralhas, incongruências, falta de vírgulas, de concordância, o nome da mesma personagem escrito de maneiras diferentes. Nalgumas partes parecia que nem um corrector ortográfico tinha sido passado pelo texto (a palavra “desadelo” não aparece no dicionário, é fácil de ser apanhado pelo corrector ortográfico). Uma das personagens é apresentada com o género errado (Shoshanna é um nome feminino, lá porque a personagem passou pelo exército israelita, não quer dizer que tenha obrigatoriamente de ser um homem) e o mesmo acontece a uma pessoa real nos agradecimentos (a autora tem uma irmã gémea, e não um irmão como a personagem do romance, wikipedia dixit).

O nome original do livro é “Ghana Must Go”, um tipo de saco de transporte que ganhou esta alcunha por ter sido utilizado pelos ganeses que fugiam da Nigéria em finais do século XX. Eu até consigo entender a opção editorial de trocar o nome do livro por outro que necessita de menos explicações. No entanto, acho que devia existir uma nota editorial no início do livro, visto que os tais sacos aparecem numa das cenas finais do livro, e no fundo, são um símbolo de toda aquela história de emigrantes ganeses e nigerianos. Nesta cena final, o saco é apresentado como “um saco plástico com os dizeres Ghana Must Go”, o que me deixa a dúvida se, na versão original, seria mesmo um saco de plástico com letras impressas ou um saco como estes. A carga simbólica da cena seria bem diferente.

Quanto ao conteúdo do livro, tem demasiada gente a chorar agarrada aos joelhos, demasiada telepatia entre mãe e filhos e irmãos, demasiados clichés, demasiadas frases. Assim. Só. Com uma. Ou duas. Palavras. Para além disso notei que as descrições dos ambientes do Gana era exóticas e ricas, enquanto as dos Estados Unidos quase inexistentes, como se fossem “a norma”. Parece que estamos a ler um livro escrito por uma Becky qualquer que foi fazer voluntariado em “África” e achou aquilo tudo “very typical”. Resumindo: esperava muito mais, só comprei o livro porque adorei o conto “The sex lives of african girls” publicado na edição portuguesa da revista Granta intitulada “África”.

Desperdício de dinheiro e uma lição aprendida: deixar de comprar traduções de livros ingleses ou americanos. Como cantava o Jim Diamond, ai ai ai ai, ai ai ai ai ai ai, I should have known better.

 

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