The joke was on me

No fim da entrevista, depois de me dizer que o valor que estou a pedir é demasiado alto, pergunta-me se estou disponível para fazer um teste. Devo telefonar-lhe às 10:30 (“A esse hora o seu marido não está em casa não? É para ele não ajudar”). Vai-me passar um briefing a que devo responder dentro do tempo por ele estipulado. Aceito, e digo que o meu marido até está no estrangeiro, que não me pode ajudar. 

Telefono-lhe no dia seguinte, apesar de a entrevista me ter deixado com urticária e uma tremenda necessidade de tomar banho. O briefing consiste em criar um logotipo, cartão de visita, flyer e outdoor para uma das marcas da empresa. O entrevistador garante que “não vou usar isso não”, como se eu ainda perdesse tempo a chatear-me com essas coisas. Tenho 4 horas para lhe enviar por mail o material pedido. Respondo que sim no tom mais neutro e incaracterístico possível. Desligo o telefone e começo a rir sozinha em frente ao computador. 4 horas. É na boa. 4 horas é em média o tempo que eu gosto de gastar só em pesquisa, antes sequer de começar a desenhar um logotipo. Não tenho mesmo mais nada para fazer até à hora do almoço por isso avanço. Sei que consigo fazer aquilo na boa em 4 horas ou menos. 

Demoro 3 horas e meia a montar uma solução digna e que não me envergonha. Faço 2 ou 3 slides com umas tretas, uns mockups como agora se usam e mando o pdf 3h45 minutos depois de me passarem o briefing.

Sento-me à mesa da cozinha a comer sopa de feijão e o resto da carne assada de ontem. A carne assada demorou mais tempo a preparar que o logotipo, cartão, flyer e outdoor. Não quero trabalhar ali nem quero trabalhar assim. Raspo o prato para o  lixo, para onde irão brevemente os 8 logotipos, cartões, flyers e outdoors que eu e mais sete macacos como eu passaram a manhã a fazer. Em pensamento trauteio em loop “talvez devagarinho, possas voltar a aprender.”

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13 thoughts on “The joke was on me

  1. Mamãe conta que, quando era estudante na faculdade de letras, numa certa cadeira o trabalho do ano foi sobre o tema sonetos de shakespear. Curiosamente, a professora estava a preparar a sua tese sobre o mesmo tema. Julgava que já não se usava estes estratagemas.

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    1. Izzie isso na Universidade continua a ser o pão nosso de cada dia… Trabalhos de campo que, curiosamente, são recolhas de amostra em tudo semelhantes às dos projectos de investigação dos professores candidatos a mestres e doutores… Aqueles sítios em que as teses só podem ser das linhas dos professores orientadores e que, para o comum aluno, nesta era de Bolonha, pouco valor real poderão ter, mas que acabam é por somar dados aos projectos dos senhores que lá continuam depois daquele aluno ir embora… Yep. Isso mantém-se.
      (Tive um professor que assumiu claramente que um trabalho que nos dava o auxiliava na recolha de dados da sua tese de Doutoramento. Mas perguntou-nos primeiro se estávamos disponíveis para isso, que aprendíamos num contexto real de investigação, ou se não estávamos, e dava-nos um trabalho do mesmo género mas hipotético. Acabámos por preferir contribuir para ele porque o tema nos interessava. Mas há muitos que o fazem e não o dizem.)

      Se é um bocado impensável que ao me recrutarem me digam: “muito bem Joana, mas para ver se é realmente boa vai fazer o acompanhamento clínico da pessoa X e depois decidimos se a contratamos”; como é que pode ser aceitável que seja o modus operandi das áreas criativas?! E concursos para logótipos e afins só para profissionais… Provoca-me instintos um bocado violentos e eu nem sou da área.

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    1. Ai, usam, usam e cada vez mais… tenho duas experiências semelhantes para a troca, embora noutra área. A diferença é que eu nem sequer me dei ao trabalho de ir a jogo. Aliás, eu acho que uma boa percentagem de pseudo-novas ideias são aproveitamento de boas intenções e desesperos alheios.

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    2. Como diz a Anna Blue, sim, usam e às vezes é mesmo à descarada: aconteceu-me uma vez, recusei e ainda tive de levar com desaforos. Azar.
      Entretanto, fixei-me no «A essa hora o seu marido não está em casa não? É para ele não ajudar»

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  2. É perfeitamente normal que o trabalho desenvolvido por alunos de mestrado/bacharelato sob orientação de um doutorando seja usado para a sua tese do doutoramento, sendo que os alunos em questão também beneficiam por ter o nome nos papers. Uma estagiária de bacharelato, durante as 10 semanas de estágio fez-me os ensaios que originaram uma figura de um paper, a de mestrado durante 9 meses fez-me os release studies usados para outra figura de outro paper. Ambas saíram com um paper no CV, e tese de bacharelato e mestrado. É perfeitamente normal, se assim não fosse, o que é que ganhávamos em ter que ensinar, desenhar experiências e orientar os alunos?
    Já usar trabalhos sem dar o devido crédito é inaceitável.

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    1. Lá está, são feitos os devidos créditos! Agora aproveitar trabalho alheio, à má fila, no-jo.

      (a do marido nem quis comentar, que me veio a bílis à boca)

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    2. Luna mas eu estava a referir-me a usar sem crédito, devia ter explicitado. No trabalho que eu exemplifiquei, o próprio professor incentivou-nos a usarmos os dados para apresentar comunicações e posters numas jornadas de iniciação à investigação (o que já era muito bom para o nosso nível da altura). E isso é que é. Mas na minha área e na minha Universidade esta situação é mais a excepção do que a regra. A regra é fazermos recolha de amostras sem sabermos (enquanto alunos a fazer trabalhos de campo normais) e anos depois, a vermos teses de doutoramento, percebermos claramente que olha, quem colectou aquela parte da amostra fui eu… Ou acabarem por integrar as amostras recolhidas nas teses dos mestrados integrados que são da linha de investigação sem creditar os autores das teses em lado nenhum. Não raras vezes mesmo :/

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  3. Eu fico chocada é com a cena do prazo. Quer dizer, suponho que um teste para emprego tem de ter um limite temporal praticável, mas do que relatas provavelmente será esse o modo de trabalhar da empresa. Tal e qual os meus patrões e tal e qual o principal motivo por que me da umas vontades de mandar tudo ao ar. Não há espaço para quem gosta de coisas bem feitas e bem pensadas.
    Mas eu até julgava que nessa área ainda há gente que lidera com cabeça: de vez em quando vê-se uns anúncios bem feitos na publicidade.

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  4. Eu fico chocada é com a cena do prazo. Quer dizer, suponho que um teste para emprego tem de ter um limite temporal praticável, mas do que relatas provavelmente será esse o modo de trabalhar da empresa. Tal e qual os meus patrões e tal e qual o principal motivo por que me da umas vontades de mandar tudo ao ar. Não há espaço para quem gosta de coisas bem feitas e bem pensadas.
    Mas eu até julgava que nessa área ainda há gente que lidera com cabeça: de vez em quando vê-se uns anúncios bem feitos na publicidade.

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  5. Os meus colegas de história do direito ainda hoje, 15 anos depois, contam como a assistente os incumbiu de um trabalho, durante meses, de pesquisa de bibliografia na biblioteca, e depois, quando ela publicou a tese, é que perceberam para que fim fizeram aquele trabalho. Claro que não mencionava os alunos.

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