Filosofia, estética e depilação brasileira

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“A depilação brasileira deixa o corpo polido. Incarna o actual imperativo de higiene. Segundo Bataille, a essência do erotismo é a contaminação. Por conseguinte o imperativo higiénico seria o fim do erotismo. O erotismo sujo cede lugar à pornografia limpa.”

“A sexualização do corpo não segue univocamente a lógica da emancipação, uma vez que acompanha uma comercialização do corpo. A indústria da beleza explora o corpo sexualizando-o, tornando-o consumível. ”

“O carácter e o consumo são opostos. O consumidor ideal é um homem sem carácter. É essa falta de carácter que torna possível um consumo indiscriminado.”

“O mundo digitalizado é um mundo que, por assim dizer, os homens coseram com a sua própria retina. É um mundo humanamente interconectado que leva a que cada um esteja continuamente a olhar-se a si mesmo. Quanto mais densa é tecida a rede, mais radicalmente se blinda o mundo perante o outro e o lado de fora.(…) Os homens já só encontram agrado em si mesmos.”

“Um amontoado de dados, como os Big Data, pode fornecer informações úteis, mas não gera conhecimento nem verdade.(…) Os dados são simplesmente aditivos. A adição opõe-se à narração.”

“A beleza das flores deve-se a um luxo livre de qualquer economia. É a expressão de um jogo livre, sem coerção nem finalidade. É por isso que se opõe ao trabalho e ao negócio. Onde imperam as coerções e as necessidades não há margem para o jogo, que é constitutivo do belo. O belo é um fenómeno de luxo. O necessário, que se reporta somente à escassez, não é belo.”

Este é um livro de filosofia e estética que eu desconhecia e que me ofereceram por indicação de uma menina livreira, deus a abençoe. Começo a ler e vai bater na mesma tecla. Como é importante a resistência na obra de arte, como é importante o atrito, o diferimento, para nos fazer pensar. Como o liso, o polido, o perfeito, o higiénico, estão a destruir a aspereza, a complexidade, o belo. Como dizia o outro “isto anda tudo ligado”.

 

Agora a sério

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Este é o livro sério em que uma pessoa com um PhD em Harvard em matemática explica como é que modelos computacionais gerados por pessoas incompetentes ou desonestas ampliam as desigualdades, transformam as pessoas em números, destroem vidas e ajudam a eleger palhaços para presidente da América. Este é o livro sério, científico e ponderado que explica aquilo que o “I hate the internet” diz aos gritos e de forma sarcásticó-alucinada.

(obrigada Rita, pela dica)

Eu não odeio a internet, mas

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Vou começar pelo mais importante: o título deste livro é estúpido. Agora que já está dito, este é dos livros mais surpreendentes que li ultimamente. Este livro não é literatura “this is a bad novel” diz o autor. Este é um manifesto agressivo e caricatural do tempo em que vivemos, um livro muito divertido, inteligente e sarcástico, mas, como quase todas as coisas muito inteligentes divertidas e sarcásticas é também muito arrogante. O que não é mau de todo.

Este livro fala sobre racismo, misoginia, sobre exploração, direitos de autor, sobre como a internet se tornou numa máquina de produzir opiniões ao serviço dos anunciantes, dos investidores, das plataformas de conteúdos. Sobre como um post anti-racismo gera dinheiro para uma plataforma gerida por racistas, sobre como o conteúdo nem sequer é relevante mas sim os cliques, os anúncios, as taxas de conversão. Sobre como as pessoas são convertidas em números. E não se importam e até gostam.

“In fact, money was the unit by which people measured humiliation. What would you do for a dollar? (…) What would you do for a billion dollars?”

“There was also a discussion about the class-based distinctions between the sizeable number of Americans who’d sublimated their unfulfilled sexual urges into gluttony. The people who’d sublimated their unfulfilled sexual urges and had money were called foodies. Everyone else was called a fat fucking slob.”

“THE ILLUSION OF THE INTERNET was the idea that the opinions of powerless people, freely offered, had some impact on the world. This was, of course, total bullshit and based on a crazy idea of who ran the world.
“dumb assholes who offer bogus opinions for money don’t need to be right. They only need to be loud”

 

Dar graças

Se eu pudesse erigir uma estátua a uma pessoa muito importante, escolhia o indivíduo que inventou as actions no Photoshop. Deus o abençoe para todo o sempre e a toda a sua descendência.