A massa de que sou feita

Há filmes e livros que cristalizaram no meu corpo. Tenho bocados deles entranhados na carne, sei que nunca deixarão de estar lá. Coisas muito antigas que me sustentam como os meus ossos, que me protegem como a minha pele, que me dão resistência como os meus músculos. Que quando por acaso volto a rever me confortam, como uma chucha ou um peluche confortam uma criança.

Tudo errado

Dizer que alguém é insubstituível é tão estúpido como dizer que ninguém é insubstituível. Os extremos são estúpidos. Mas a mediana também é estúpida. É na mediana que se acoitam os cínicos.

Nos anos oitenta

Nos anos oitenta, uma criança da primária inventou uma peça de teatro em inglês para a festa de natal ou de fim de ano da escola, que consistia na não interação entre uma personagem que se suicidava, atirando-se de um prédio enquando dizia “I’m going to die”, e outra que assistia passiva, limitando-se a colocar um cartaz dizendo “the end” sobre a que tinha acabado de morrer. Nos anos oitenta ninguém fez perguntas, ninguém levou a criança à psicóloga, nos anos oitenta isto foi normal. Em dois mil e dezasseis uma adulta pergunta como é que isto foi possível.