Sobre isso de os pais estudarem com os filhos

Os meus pais nunca estudaram comigo porque nunca foi preciso. Sempre fiz questão de ser boa aluna, não porque gostasse de estudar ou quisesse ter as melhores notas, mas porque cedo percebi que isso me permitiria certas liberdades. Tal como os psicopatas, descobri que é por trás de uma fachada de normalidade que melhor se escondem os vícios. Como tinha boas notas, os meus pais confiavam em mim e não faziam muitas perguntas sobre a escola. Nunca souberam que a mochila descia a rua a pontapé ou que gastava a mesada em pastilhas elásticas (que a minha mãe expressamente me proibira de comer), que praguejava como um carroceiro, que ia ao cinema só com rapazes, que comprava tabaco no jornaleiro do centro comercial, que via filmes para maiores de 18, que em vez de ir às fotocópias ia para a beira da piscina apreciar os rapazes a despirem-se. Ter 12 anos era bem fixe. A minha mãe, ingenuamente, sempre achou que eu não fazia nada mais do que a minha obrigação.

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6 thoughts on “Sobre isso de os pais estudarem com os filhos

  1. Como te compreendo, eu também tenho a mais injusta das boas reputações.

    (no resto, sou a favor de que os pais que possam e queiram estudem com os filhos que precisem e queiram sempre que tal seja necessário ou desejado. Acho negativo começar por fazer isso antes de se poder aferir dessa necessidade ou desejo de parte a parte, mas sei lá eu da vida de cada um. Já as escolas mandarem trabalhos que só possam ser feitos com os pais/ pelos pais, seja porque as crianças são muito pequenas e não dominam as técnicas ou porque a matéria não foi suficientemente explicada em aula, acho escandaloso)

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  2. igual, com 2 diferenças: zero cigarros e zero gajos à beira da piscina :)
    e um detalhe, queria ir-me embora, de modos que consegui, no momento do preenchimento dos papéis para o ingresso na universidade, verificar o luxo: lugar onde bem me aprouvesse (a história é mais longa, mas basta para corroborar o que escreveste)

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  3. Idem aspas, mas só comecei a cobrar dividendos lá para os 14, 15.

    Sobre estudar c’as crianças,uai, grande can of worms. Nunca pensei que um tema destes suscitasse tanta polémica, caneco. Obviamente subestimei a seita das mães (devotadas). Caramba. Parece que só se pode dar uma opinião diversa ou criticar ou mesmo fazer pouco do lifestyle materno alheio quando não se enquadra no nosso modelo.
    Agora a sério, acompanhar os estudos acho normalíssimo, mas os pais serem tutores / explicadores /professores substitutos não me entra. Já tenho o meu trabalho, tinha lá tempo e capacidade de me substituir a um professor. Os profs também não fazem o meu serviço. Mas parece que, em se tratando de uma não-mãe, não tenho que me pronunciar. (com a merda de feitio que tenho, se acaso tivesse um filho que me chegasse a casa da infantil com “trabalhos de casa” obviamente destinados a ser feitos pelos pais, no dia seguinte iria ter um pé de orelha com a educadora. fazíamos logo ali um pacto de sangue: eu não faço o trabalho dela, ela não faz o meu e, nos entretantos, também não se dá à liberdade de ditar como a família ocupa os tempos livres).

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  4. Tenho uma colega na piscina que é professora (do 5.º ao 12.º ano) de ciências naturais. Já precisamente há tempos lhe tinha perguntado (com a mão na anca, acrescentando um “mas que raio é isto de …”) por que razão hoje em dia se ouve tantos pais dizerem que estudam e fazem trabalhos com os filhos. Segundo ela, hoje em dia há uma carga muito maior de trabalhos de casa e ao que parece também muito mais complexos. Isto em relação à nossa geração, e daí nos fazer tanta confusão, porque efectivamente a maior parte de nós não fazia os trabalhos com os pais, nem estudava a não ser em casos pontuais, de dúvidas no âmbito do estudo. Porque não tínhamos necessidade disso.

    Izzie :) ando para te dizer que fico sempre com um sorriso (bom) nos lábios quando te encontro a comentar este temas. Fico sempre com vontade de te contrariar, quando começas as frases com o “eu não sou mãe mas…”. Quem te conheça que confirme: podes não ser mãe, no sentido estrito, mas não deixas de ser muito maternal, quando a vida te leva para esse lado. Desconfio até que muito mais maternal que muitas mães. Na preocupação, no interesse, no facto de te importares.
    Am I right or… ? :)

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    1. Eu ponho o “não sou mãe” porque parece que isso me desautoriza a ter uma opinião. Diz que. Aqui há dias deixei um comentário num sítio, sem saber que estava a pisar território proibido, e sem saber que estava em causa alguma “polémica” e pah, não há pachorra, parece que se gerou algum mal estar (um sítio “do costume”, e o mal estar veio de pessoas “do costume”, que aliás não se coíbem de gozar à farta quem veste filhos em matchy-matchy, por exemplo, mas ai de quem, mesmo sem tal propósito, questione as suas orientações)

      Anyhoo, obrigada pela confiança, mas não. Não me acho maternal, e acho que não tenho competências maternais. Mas tenho imensa pena dos putos, que acho que brincam de menos, têm uma carga escolar parva e com excessivas expectativas, levam logo com bandeiras de “sucesso” desde miúdos, como se a prioridade não fosse criar seres equilibrados e felizes, mas pequenitos CEO. Acho mal, pronto. Como acho mal a total alienação familiar em redor desse futuro “sucesso”. Os putos precisam de aprender a gerir-se, a organizar-se, de brincar, de se maçar, e os pais têm de “deslargar” um bocadinho. Sempre de olhinho, claro, nunca fiando, mas sem que se tornem aqueles horrendos e assustadores helicopter parents.
      Não me sinto minimamente motivada ou competente para ser mãe, neste actual modelo de sociedade. Ia ser uma fonte de desequilíbrio para um ser que não tem culpa nenhuma, e uma criança não tem de ser uma cobaia de uma fulana que é demasiado fascista no que toca a maneiras, princípios e regras, mas demasiado libertária no que toca a formatação académico-pedagógica, e que não leva muito a sério o paradigma do “sucesso”. Vale de muito, tirar um cursinho bem cotado, ter um emprego bonitinho, e ser miseravelmente infeliz o resto da vida.

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      1. Mas acho q essa porcaria é culpa do actual sistema. Conheço mta malta da área da educação, publico e privado desde a primária ao secundário. O que me contam é medonho.
        Uma das minhas amigas dá “cábulas” aos pais para que os mesmos consigam perceber e ajudar a corrigir os trabalhos dos putos (se bem que isto tem mais a ver com a alteração nos métodos de ensino).
        Mas eles passam demasiadas horas na escola, em aulas. É medonho.
        Eu na primária só tinha aulas de manhã, lembro-me perfeitamente. Hoje em dia a carga horária é assustadora.

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