Árvore genealógica

A preguiça é a mãe de todas as coisas. O pai é o descaramento.

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Sobre isso de os pais estudarem com os filhos

Os meus pais nunca estudaram comigo porque nunca foi preciso. Sempre fiz questão de ser boa aluna, não porque gostasse de estudar ou quisesse ter as melhores notas, mas porque cedo percebi que isso me permitiria certas liberdades. Tal como os psicopatas, descobri que é por trás de uma fachada de normalidade que melhor se escondem os vícios. Como tinha boas notas, os meus pais confiavam em mim e não faziam muitas perguntas sobre a escola. Nunca souberam que a mochila descia a rua a pontapé ou que gastava a mesada em pastilhas elásticas (que a minha mãe expressamente me proibira de comer), que praguejava como um carroceiro, que ia ao cinema só com rapazes, que comprava tabaco no jornaleiro do centro comercial, que via filmes para maiores de 18, que em vez de ir às fotocópias ia para a beira da piscina apreciar os rapazes a despirem-se. Ter 12 anos era bem fixe. A minha mãe, ingenuamente, sempre achou que eu não fazia nada mais do que a minha obrigação.

Ginásio 4

Comprei uma mala bonita para ir ao ginásio porque o fecho da mochila, que tinha 15 anos, se estragou. Tenho calos nas mãos por causa da máquina de remar. Tenho calos nas mãos por causa de cortar maquetes com x-acto. Tenho as mãos secas de manusear papel e de não as barrar em creme. À segunda-feira há muita gente no ginásio, remorsos do fim-de-semana. Esqueço-me quase sempre dos óculos no duche. O exercício físico adianta as necessidades fisiológicas: comer, cagar, foder. Detesto pentear-me.