Últimos cartuchos de 2015

Ouvi uma vez um advogado dizer que o objectivo das penas de prisão não é apenas punir mas também dissuadir. Em 2015 há quem pense que com 400 euros e 40 horas de trabalho semanais é possível sobreviver numa cidade e ter filhos, levá-los para a escola às 8 da manhã, ir buscá-los às 4 da tarde quando as aulas acabam. As cidades estão feitas para as baratas e as ratazanas. Ainda há quem faça lareiras falsas na sala, bares não sei. Ainda há quem tenha “amigos pessoais”, dos outros não sei. Uma mulher real é uma pessoa, não é uma fotografia retocada no computador. Em 2003 o Andrew Lincoln fez de conas no Love Actually, em 2015 fez de conas no Walking Dead. Na semana passada fiz 500 bolachas, demolhei 2 bacalhaus e confeccionei um bolo rei de quase 2 kg. Este ano aprendi o que é ventilan, atrovent, celestone, augmentin e clavamox. O meu ano em revista dava um teatro de revista ou uma capa da revista National Geographic. Fui convidada para um lanche que se transformou numa conferência de imprensa de um casal que fala como se estivesse permanentemente a ser entrevistado. Decidi que não uso lingerie, uso cuecas e que nunca mais irei a um casamento (ou a qualquer outro lado) com sapatos que magoam os pés. Lembrei-me de quando o merceeiro me dava o troco em pastilhas e pensei se não dava para fazer o mesmo com acções do Banif, mas agora nem isso, ao menos davam-me uma cadeirita ou duas pela minha parte na operação, ou uma daquelas máquinas de contar notas que fazem rá-tá-tátátá. Quase que consegui deixar de ter preconceitos com pessoas que organizam os livros por cores. Lembrei-me que na minha turma era a única que se lembrava do nome predicativo do sujeito ao dividir orações, tanto que quando a professora se virava para mim para eu dar a resposta toda a gente ficava logo a saber o que era. Sempre quis ter tatuagens desde que na primária fazia desenhos nos braços com canetas de feltro e não me ofendem as piadas com a Ana Malhoa. Este foi o ano em que pela primeira vez vi roulotes e carrinhas e apes 50 a vender comida dentro de centros comerciais, e a chamarem aquilo de street food. Apercebi-me de que não nasci para ser contemplada nem com prémios nem como obra de arte. Em 2015 aprendi a viver com o caos e a incoerência e que a isso se chama normalidade. Em 2015 continuei a ver pessoas a colocar no Facebook fotos tiradas nas férias com crianças que encontraram na rua em países do terceiro mundo e depois a colocarem barras pretas ou a desfocarem a cara dos próprios filhos. Em 2015 senti falta de encontrar mais pessoas sem agenda, que dizem o que pensam e pensam no que dizem e se contradizem porque aprendem e mudam porque não devem nada a ninguém e não estão a lamber botas nem a fazer favores, nem a jogar verde para colher maduro. Fartei-me de extremismos, dos direitolas e dos esquerdalhos e da cegueira da mentalidade de manada, da facilidade com que se assume um papel só para fazer parte do grupo, do excesso de coerência que não é coerência é macaquismo de imitação. Fartei-me de não poder dizer ou gostar de nada sem que isso seja visto como uma declaração política. Lembrei-me dos sapatos e do vestido que levei quando fui há muitos anos ao palácio galveias receber um prémio literário, castanhos de camurça, castanho com florinhas e do menino prodígio do júri que mandou um amigo telefonar-me para casa não sei lá bem para quê, eu de vestidinho e sapatos castanhos, de fivela. Em 2015 descobri que há pessoas que montam negócios com o dinheiro dos outros, sem fazer contas, que acham que basta vender aquilo de que gostam sem qualquer outro critério que não o umbiguismo do “gerente”, e que é possível manter um negócio aberto sem cumprir horários. Confirmei a crença de que musa nem sempre rima com tusa e que mais perigoso do que comer chouriços é ter uma relação com um homem. Que as palavras agrupam coisas não agrupáveis, vida, maternidade, tanta contradição dentro de cada palavra. Em 2015 percebi que a objectividade e racionalidade morreram, e jurei nunca mais aceitar nada do que leio sem questionar as intenções do autor, sem consultar a agenda, sem saber a cor política, o clube, o bairro em que nasceu, abracei o cinismo de saber que não há quase ninguém quem vá contra os próprios valores para dizer a verdade. Aprendi a ter medo de deixar de ver aquilo de que não gosto, de como isso é perigoso. Fartei-me da instrumentalização da religião, da utilização de Deus como um bonecreiro, das religiões úteis que resolvem os meus defeitos e problemas barrando-os em leite e mel. Admiti que sou fraca, muito fraca, que desisto facilmente e peço desculpa quando não devia para evitar o conflito, que me escondo e abdico para não arranjar chatices, que me rio e venho embora mais vezes do que devia. Apercebi-me de que há cada vez mais pessoas que não conseguem dizer “não sei” quando não sabem. Continuei a usar um blazer que comprei na MacModa em 1997 sempre na esperança de quando estiver perto de uma tesoura finalmente me lembrar de descoser os bolsos.

A banalidade do mal

Comecei a ver o “How to get away with murder” e não gostei. Não é a amoralidade que me incomoda, já vi coisas bem mais grotescas e violentas. É a leviandade. O Hannibal Lecter pode ser imoral, mas nunca é leviano.

Educação sexual

Aprendi o que era um broche quando entrei, com 9 anos, para o 5º ano. Um homem junto à grade da escola sussurava às miúdas mais velhas que já tinham mamas “fazia-te um minete” e “boquinha de broche” entre outras coisas. No 7º ano, com 11 anos, passei a usar sweatshirts largas, tanto no verão como no inverno porque não queria que vissem que já tinha mamas. Com que idade aprendi a arte da auto-anulação, já não me lembro. Com 16 anos, quando um homem me agarrou pelo braço, à noite, num túnel mal iluminado, soube imediatamente que não me conseguiria soltar através da força. “Vem comigo” ordenou ele. Sorri-lhe, pedi desculpa, disse que naquele dia não podia ser, que os meus amigos me esperavam lá ao fundo, e acenei efusivamente para um grupo de estranhos na outra ponta do túnel. Com que idade aprendi a pedir desculpa para me proteger, a sorrir para estranhos que me importunam, a baixar a cabeça e fazer ouvidos moucos, a andar de noite de capuz na cabeça, a analisar estratégias de fuga, a alterar trajectos, a trocar de passeio, isso já não me lembro.