Aniversário

Há precisamente 1 ano comecei a dormir de óculos, absurdo que nunca imaginei cometer. Passou-me ao fim de 2 meses. Quando o meu filho nasceu, nasceu também, dentro de mim, uma bola muito negra de medo, que nuns dias se expande e noutros diminui mas que nunca desaparece completamente. 

Textos peludos

Uma das experiências psicologicamente mais desgastantes da minha vida foram as aulas de desenho na faculdade. O mais difícil não era domar a mão para que ela se movesse como queria, o mais difícil era treinar os olhos a ver o que tínhamos à nossa frente. A maior parte do que vemos é imediatamente completado pelo cérebro com informações daquilo que conhecemos previamente. Mesmo que esteja a ver apenas uma parte de uma laranja no escuro, e que essa imagem entre pelos meus olhos como um crescente amarelo dourado, o meu cérebro sabe que se trata de uma esfera cor-de-laranja e rugosa que ali está. Desta forma, ao tentar desenhá-la, temos tendência para ir pelo que sabemos e não pelo que vemos, acrescentando coisas que não estão lá. Destreinar os olhos para ver menos, para ver apenas o que lá está, a crueza das formas e cores como se apresentam e não como sabemos que elas são. Escrever as coisas como elas são é tão difícil como desenhar as coisas como elas são, reduzir o nosso olhar e as palavras ao verdadeiro, ao que está lá. As aulas de desenho vivem desta redução, do olhar apurado do que é essencial, da aplicação do traço certo e sucinto que numa linha desvenda o que está lá e nos sugere tudo o resto que sabemos. Quando a desenhar hesitamos, vamos fazendo traços sobre traços, uns disfarçando os outros, corrigindo-se mutuamente, sem que nenhum seja o certo, o verdadeiro. Os meus professores chamavam-lhes “desenhos peludos”. O mesmo acontece com as palavras. Devem ser menos e mais certeiras, como as linhas necessárias e essenciais num desenho, senão transformam-se em textos peludos. Tive muito bons professores de desenho, e lembro-me da teoria toda, mas o facto é que na prática nunca consegui ter mais do que 14.